Notícias

  • CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 35, n.3 (jul. - set. 2026) Dossiê: Regimes e formas de violência. Ética, representação, interpretação

    2026-02-03

    CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 35, n.3 (jul. - set. 2026) 

    Dossiê: Regimes e formas de violência. Ética, representação, interpretação

    Organizadores: 

    Maria Zilda Ferreira Cury (UFMG) 

    Jobst Welge (Universität Leipzig, Alemanha)

    Janek Scholz (Universität Leipzig, Alemanha)

    Prazo para submissão: 31/03/2026

    Nos anos recentes, a violência tem sido considerada na literatura principalmente em termos da inscrição de lembranças dolorosas na memória coletiva. Os memory studies, em diferentes áreas do conhecimento, forneceram uma ampla gama de ferramentas conceituais para a reflexão sobre essa inscrição.   A proposta Regimes e formas de violência. Ética, representação, interpretação volta-se para a função arquivística dos textos, mas sobretudo, intenta a reflexão sobre as implicações hermenêuticas e éticas da figuração literária de tais lembranças. O que significa retratar a violência por meio da literatura? Não há sempre um voyeurismo inerente em toda representação de violência? Qual é a tarefa ética da literatura e que meios estéticos existem para cumpri-la (especialmente com relação a representações de violência)? Isso também envolve a elaboração de processos estéticos de mediação, cujas diferentes funções são também condicionadas pela distância temporal dos textos em relação aos eventos representados. O romancista brasileiro Julián Fuks destacou o quanto a ficção romanesca contemporânea (seguindo o modelo de W. G. Sebald) incorpora elementos ensaísticos, precisamente como uma forma não apenas de representar, mas de refletir criticamente sobre as experiências de violência e suas consequências: “[…] um conjunto grande de escritores vem se incumbindo de promover uma reflexão sobre as repressões várias, as violências oficiais, as incontáveis formas de autoritarismo, os muitos traumas históricos” (Fuks 2021, 172). Metodologicamente, isso significa questionar qual é a função genuína da ficção para a reflexão ética sobre a violência. Por exemplo, em seu livro The Ethics of Storytelling (2017), a estudiosa finlandesa Hanna Meretoja considerou questões narratológicas a partir de uma perspectiva ética e hermenêutica. No que diz respeito à representação de eventos históricos violentos, isso significa que muitas narrativas contemporâneas exploram o hipotético, ou seja, uma extensão imaginativa do real que transcende deliberadamente a dimensão da referencialidade. Esta ideia de extensão imaginativa é também enraizada na noção do sujeito como o lugar da experiência vivida e da reflexividade. Como Meretoja sugere, esta dimensão da possibilidade do real é de fato característica de tendências mais amplas na literatura contemporânea, na medida em que os textos literários desafiam a dicotomia entre o real e o possível.

    Em contraste com outras formas de representação, a literatura comumente se preocupa com a dimensão da experiência direta da violência, por meio da qual sua representação literária levanta questões éticas urgentes sobre responsabilidade e o “sofrimento dos outros” (Arendt; Falke et al.; Rothberg; Sontag). Propõe-se, aqui, a discussão sobre as implicações e consequências éticas, estéticas e narratológicas para o presente, como resultado da revisão literária de experiências históricas de violência - entre experiência, memória e “processamento” ou reparação. O dossiê está aberto a contribuições que examinem representações literárias de experiências pós-coloniais e pós-ditatoriais de violência no Brasil. O foco está principalmente na “revisão”, desde a distância temporal, das condições de violência política (por exemplo, em uma perspectiva transgeracional) em obras da literatura contemporânea do século XXI. Além disso, propõe-se uma discussão das implicações hermenêutico-éticas das representações da violência e dos processos estéticos da mediação. 

    É prevista uma divisão em três seções temáticas: primeira, regimes (violência política, ditadura); segunda, estruturas (relações pós-coloniais de posse e exploração); e terceira, corpos (violência interpessoal e sexualizada).

    Literatura

    Arendt, Hannah. On Violence. San Diego/New York/London: HBJ. 1970.

    Falke, Cassandra; Fareld, Victoria; Meretoja, Hanna. Interpreting Violence. Narrative, Ethics and Hermeneutics. London: Routledge. 2023.

    Fuks, Julián. Romance. História de uma ideia. São Paulo: Companhia das Letras. 2021. 

    Meretoja, Hanna. The Ethics of Storytelling. Narrative Hermeneutics, History, and the Possible. Oxford: Oxford University Press. 2017.

    Rothberg, Michael. The Implicated Subject. Beyond Victims and Perpetrators. Stanford: Stanford University Press. 2019.

    Sontag, Susan. Regarding the Pain of Others. London: Penguin. 2003.

    Saiba mais sobre CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 35, n.3 (jul. - set. 2026) Dossiê: Regimes e formas de violência. Ética, representação, interpretação
  • CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 35, n.4 (out. - dez. 2026) Dossiê: Lirismo e poética do pensamento ou quando pensar quer dizer - buscar um poema

    2026-01-30

    CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 35, n.3 (out. - dez. 2026)

    Dossiê: Lirismo e poética do pensamento ou quando pensar quer dizer - buscar um poema

    Organizadores: 

    Danielle Freitas (UFMG)

    Fabio Roberto Lucas (PUC-SP)

    Matilde Manara (Universitá di Catania)

     

    Prazo para submissão: 27/05/2026

    Quais seriam as relações entre a poesia lírica e o pensamento filosófico na era moderna? Por um lado, essa questão remete à longa história da separação entre esses dois campos, incentivada por Platão e por aqueles que temem o efeito perturbador da experiência poética ou que desejam manter bem separadas as palavras ficcionais ou “de abertura de mundos” e as palavras discursivas submetidas aos regimes de “argumentação intramundana” (para retomar os termos de Jürgen Habermas e de um ensaio de Jacques Rancière que os questiona). Por outro lado, encontramos uma história igualmente vasta sobre os esforços para demonstrar como o pensamento não seria de forma alguma estranho à poesia, e nem mesmo desprovido de uma poética, que a própria filosofia, em suma, seria “uma questão de forma”, segundo a expressão de Valéry. 

    Em sua dança conjunta, o pensamento filosófico e o poema lírico compartilham e disputam seus papéis, prolongando e intensificando as tensões que os levam a dançar: assim, ora um é “rígido, duro e pastoso”, à espera do gesto poético-linguístico do outro, que o tornará mais “mole” , como se o poema fosse a incisão pela qual a inteligência transborda e sai de si mesma; outras vezes é o pensamento que demonstra flexibilidade, linguagem interior mal pronunciada, em voz baixa, à beira do silêncio que o mantém continuamente em “self-variance”, sendo o poema então a obra que constrói passagens hesitantes entre o informe e a forma. No vaivém dessa dança, às vezes acontece de a filosofia encarar o poema como uma “interrupção do barulho geral” do discurso, uma “afirmação sem precedentes” isenta de qualquer obrigação de prova, irredutível a qualquer cálculo ou demonstração de raciocínio, como se a singularidade da poesia – seu dom, bem como seu perigo – fosse a própria distância que ela mantém em relação à arena dos debates públicos. Por outro lado, também acontece de o filósofo acusar o poeta de sofisma, de estar muito à vontade nas trocas verbais da cidade, capaz de manobrá-las à sua vontade. O poema lírico seria assim desafiado pelo pensamento a testar seus próprios limites e possibilidades, seja como revelação de uma verdade incomparável vinda de outro lugar — mesmo que seja apenas para revelar que não há nada a revelar —, seja como acontecimento que suscita, frente às ideias supostamente universais e atemporais da razão, suas contrapartes corporais, temporais e vernáculas.

    Mas como essa discussão assumiria seus contornos modernos e contemporâneos diante das inúmeras tensões estéticas, históricas e sociais que transformaram a forma poética ao longo dos últimos dois séculos? Como as ligações entre o lirismo e o pensamento se modificaram diante das experiências de prosificação do poema ou das novas formas de conceber e praticar a versificação, de repensar ou reafirmar a relevância do lirismo em meio às catástrofes de um mundo acelerado e desencantado? 

    No cenário brasileiro atual, a obra do poeta, crítico e tradutor Marcos Siscar tem oferecido contribuições decisivas para a discussão sobre a afinidade entre poesia lírica e pensamento. A discussão da reproposição do sujeito poético, por exemplo, que aparece em muitos de seus ensaios, como uma tensão posta nos termos de “deixar-se consumir por um outro, [...]reconhecer-se na diferença consigo mesmo [...] ter revelado por esse outro sua própria contrariedade”, irrompe nos poemas para suspender a crença na esterilidade do eu poético. Trata-se de, poeticamente, “ouvir o que a palavra usual, transformada em objeto de pensamento, tem a dizer”; para o leitor ou leitora, trata-se de refletir sobre a forma como essa tensão se traduz nas escolhas rítmicas, sintáticas e enunciativas do texto. 

    O dossiê convida a contribuições que reflitam sobre as relações entre poesia lírica e pensamento, compreendidas a partir dos gêneros e formas que podem assumir (seja a meditação no poema longo, o ensaio poético, etc.) ou de modos específicos de inscrição e escuta do pensamento através dos desafios da abordagem lírica, das tensões entre o eu, o outro e o mundo, da elaboração material (sonora, gráfica, semântica, retórica etc.) do verso e do refinamento de seus efeitos de sentido. Convida a questionar os dispositivos formais que distinguem entre os quadros de inteligibilidade próprios ao poema e aqueles próprios do discurso argumentativo (ritmo, corte, brancos, montagem, prosificação), bem como seus efeitos sobre a definição de conceitos e julgamentos como os de verdade, prova ou experiência. Em vez de opor poesia e filosofia como dois territórios estanques, propomos considerá-las como duas práticas que se renovam e se contestam, nomeadamente em torno da questão do alcance cognitivo da literatura. Trata-se de identificar, nas formas modernas do poema – em verso, em prosa ou em formas híbridas –, as modalidades precisas pelas quais um pensamento se inscreve, se dramatiza ou se desloca no interior do texto. Incentivamos especialmente trabalhos que abordem as questões filosóficas da obra poética de Marcos Siscar, mas deixamos o dossiê aberto a contribuições que busquem estudar os diálogos entre o pensamento e o lirismo no contexto mais amplo da literatura moderna e contemporânea. Consideramos, portanto, as diferentes maneiras de fazer ressoar a seguinte questão: quando pensar significa buscar um poema?

     

    Referências 

    Badiou, Alain, « Philosophie et poésie : au point de l’innommable », in : Po&sie, n. 64, 1993, p. 88-96.

    Badiou, Alain. Que pense le poème, Paris : Nous, 2016.

    Collot, M. La Poésie moderne et la structure d’horizon. Paris: PUF, 1989.

    Deguy, Michel. Reabertura após obras. Tradução e prefácio de: Marcos Siscar e Paula Glenadel. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

    Glenadel, Paula. Escritas Pensantes: Trajetos Entre Literatura e Filosofia. Rio de Janeiro: 7Letras, 2019.

    Lavelle, Patrícia et al (orgs.). Poesia e filosofia: homenagem a Orides Fontela. Belo Horizonte: Relicário, 2019.

    Manara, Matilde. L’Intelligence du poème. Lyrisme et pensée chez Valéry, Rilke, Stevens et Montale. Paris: Classique Garnier, 2023.

    Nancy, Jean-Luc, « … sur le bord de la langue qui file », Jean-Paul Michel, Bonté seconde, Cahier dirigé par Tristan Hordé, ed. Joseph K., 2002.

    Rancière, Jacques. La Mésentente. Paris: Galilée, 1995.

    Rueff, Martin, Différence et identité. Paris : Hermann, 2009.

    Sermet, Joëlle de. O endereçamento lírico. Lettres Françaises, v. 20, n. 2, p. 261-279, 2019.

    Siscar, Marcos. Poesia e Crise: ensaios sobre a ‘crise da poesia’ como topos da modernidade. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

    Tarkos, Christophe. Écrits poétiques, P.OL., 2008. 

    Thouard, Denis, Pourquoi ce poète ? Paris : Seuil, 2016.

    Valéry, Paul. Poiética [Cadernos]. Edição aumentada, estudo e tradução de Roberto Zular e Fábio Roberto Lucas. São Paulo: Iluminuras, 2022.

    Vinclair, Pierre, Prise de vers, Paris : La rumeur libre, 2019.

    Saiba mais sobre CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 35, n.4 (out. - dez. 2026) Dossiê: Lirismo e poética do pensamento ou quando pensar quer dizer - buscar um poema