A edição do segundo semestre de 2017 da revista Outra Margem está disponível para visualização e download em PDF.
A gênese constitutiva do programa normativo da teoria crítica se autocompreende enquanto interdisciplinar. Dentre os vários saberes constitutivos na pesquisa crítica a filosofia social tem seu lugar específico enquanto àquele saber voltado ao mundo social com um telos para a emancipação. Emancipação é entendida aqui enquanto identificação, análise e tentativa de resolver as patologias sociais (Honneth). Tal tratativa permite que uma abordagem ontológica-social contida na filosofia social encete formas de emancipação possibilitando o processo de efetivação social por parte das instituições sociais. Pretendo explicitar nesta pesquisa, oriunda de uma parte do doutoramento, que o programa normativo de uma filosofia social vinculado a uma abordagem social-ontológica toma por base uma plataforma de cunho político-social vinculado a uma forma específica de instituição e que, nesse caso, reflete no plano de ação “Mais IDH” (MA/Brasil) cujo mote é a promoção da efetividade social.
O advento dos sofistas (σοφιστής) no cenário intelectual do mundo antigo é o que propulsiona a filosofia de Platão cobrando dele uma sofisticada elaboração filosófica. Propomos aqui, tecer algumas considerações sobre a controversa figura dos sofistas: Protágoras e Górgias e as reações, não muito amistosas, de Sócrates e Platão. Abordaremos, ainda que de forma introdutória, os temas da ‘verdade’ (ἀλήθεια) e do relativismo, da ‘retórica’ (ῥητορική) e do ‘ceticismo’, temas que julgamos fundamentais para um contato inicial com esses pensadores que, embora vilipendiados por parte da tradição, contribuíram de forma significativa para a efervescência cultural e política dos séculos V e IV a. C., e que ainda hoje despertam interesses diversos na pesquisa filosófica.
Esse artigo tem o intuito de expor, em linhas gerais, o desenvolvimento do processo hermenêutico desde o judaísmo até o pensamento de Martin Heidegger, passando pelos métodos de interpretações judaicos e as propostas de Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero, Schleiermacher e Dilthey. Mostramos as idas e vindas de um processo hermenêutico que, embora caminhe até dias atuais, receberam por parte dessas personagens, importantes contribuições, passando de uma hermenêutica meramente
textual para uma hermenêutica que leva em conta o fato da presença do ser humano no mundo.
Se é certo afirmar que houve uma formação pelo teatro, em Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, é preciso acrescentar que tal formação não culmina nos ideais de juventude do personagem, a saber, tornar-se o criador de um teatro nacional e poder viver de sua arte. Ao contrário, há o abandono do universo teatral. Este artigo pretende demonstrar que tal abandono pode ser entendido não como o término dos anos de formação, mas sim como o transbordamento da poesia dramática que põe o romance na pauta do dia. Quer dizer: em razão do esvaziamento de uma poética do trágico e na falta de um teatro de corte, na Alemanha, coloca-se em pauta a questão do romance no interior do próprio romance goethiano num momento crucial em que Shakespeare é discutido. É nessa perspectiva que este artigo procurará demonstrar que o dilema da forma teatral desembocará, a partir do dramaturgo inglês, em um transbordamento da subjetividade frente ao espetáculo ao mesmo tempo em que o dilema da formação se dá pelo ajustamento do indivíduo à realidade social concreta.
O texto pretende desenvolver uma leitura acerca da relação entre os conceitos de “Intenção” e “Liberdade” a partir de uma perspectiva histórica; a partir do tratamento de tais conceitos na obra de Anselmo da Cantuária até as leituras feitas de seu trabalho na modernidade por Franz Brentano, Edmond Husserl e Jean-Paul Sartre, que à sua maneira representa um movimento de recuperação de noções presentes na ética anselmiana. Desse modo analisaremos o desenvolvimento mútuo de tais conceitos, e de sua relação, ao longo do pensamento filosófico ocidental.
Pretendemos neste trabalho apresentar alguns aspectos da relação entre filosofia e ciência em Heidegger. A reflexão sobre os limites da ciência enquanto comportamento humano e seu enraizamento em um solo ontológico mais profundo sempre ocupou lugar de destaque na obra heideggeriana. Em Ser e Tempo o autor vincula o comportamento científico à visualização teórica e objetiva de mundo e apresenta o caráter derivado dessa mesma visualização teórica em relação a um contato mais imediato com os entes. A filosofia, por seu turno, é estruturada também como postura teórica, mas que possuiria como marca distintiva uma tendência para a contemplação do mundo numa totalidade. O que essa distinção implica para a relação entre filosofia e ciência e em que medida a segunda encontra seus fundamentos ontológicos na primeira deverá ser investigado em nosso trabalho. Indicaremos, por fim, que a própria noção da diferença ontológica entre ser e ente encontra-se na base da relação entre ciência e filosofia.
O presente artigo tem por objeto central a problemática do sofrimento na filosofia de Simone Weil (1909-1943). Seu desígnio é abordar os aspectos medulares segundo os quais ela se configura no âmbito do pensamento weiliano, de modo a culminar na assimilação do sofrimento como um pathos. O itinerário que será profícuo recorrer para oportunizar esse desígnio começa com a caracterização da concepção da filósofa francesa acerca da natureza da filosofia. Isso possibilitará compreender sua determinação em participar da condição operária, onde se constituíram os principais elementos que se desmembram no conceito weiliano de sofrimento. Por conseguinte, será pertinente elucidar o conceito de malheur, decisivo para a temática em questão, e ulteriormente perpassar pela reconfiguração da problemática do sofrimento em Weil mediante o seu contato com o cristianismo e a experiência da graça.
Aquilo que faz com que eu seja “eu mesmo” e que minhas experiências sejam minhas é algo que “faz parte de mim”? É uma propriedade de meu ser? É algo que pode ser acessado por mim em primeira-pessoa? O filósofo francês Jean-Paul Sartre acreditava que o “eu” é algo que só faz parte das experiências reflexivas de um indivíduo, de modo que em boa parte da sua vida consciente (nas experiências ditas préreflexivas) não há nada que se qualifique como um “eu” tornando suas aquelas experiências. Mas se o “eu” só está presente nas experiências reflexivas, o que confere às minhas experiências pré-reflexivas a noção, sensação ou certeza instantânea e aparentemente intrínseca de que elas são minhas? Este artigo faz uma breve incursão pelos meandros destas questões.
O texto parte principalmente das considerações sobre a relação entre natureza e história no livro Origem do drama trágico alemão e da interpretação que Adorno faz deste livro na conferência "A ideia de história natural", de 1932. Ao contrário de manter esses dois conceitos como realidades estáveis inseparáveis, a atitude crítica dos dois filósofos implica a sua justaposição para uma compreensão subversiva da realidade, baseada mais na decifração e apresentação escrita da verdade filosófica como ela está sujeita à história e à transitoriedade do que na sua captura como estrutura estável e permanente que fundamenta realidade. Na conclusão de que a natureza não existe mais para a humanidade, no sentido de que não há uma realidade primeira e originária que detém o privilégio do ser que deve ser conhecido, se coloca também a questão de entender o que é produzido pela história, pela modernidade, como também elemento determinante de produção de natureza.
Este artigo tem como objetivo demonstrar, a partir do pensamento epistemológico de Gaston Bachelard (1884-1962), como a Razão pode ser descontínua, desde que se leve em consideração o problema acerca da dinamicidade dos conceitos científicos. O pensamento possui uma estrutura aberta que o torna dinâmico, tendo a capacidade de contrariar as explicações que pretendem ser definitivas. É neste sentido que as ciências devem vigiar seus antepassados históricos e se atentar para a atualidade dos problemas abordados, a fim de não obstaculizar o pensamento. A partir dessa perspectiva, a Razão apresentada pela epistemologia bachelardiana possui uma história descontínua. Trata-se de uma razão que volta contra si mesma e se reforma constantemente, eliminando os obstáculos relacionados a conceitos sedimentados no pensamento. A Razão causa revoluções. Ela age vigiando, inventando e defendendo seus valores na medida em que contraria seu antepassado histórico. Então, o pensamento de Bachelard destaca uma razão ativa, que ao exercer seu papel criador, rompe com as formas do imobilismo. Daí o novo racionalismo das ciências contemporâneas pode ser compreendido como um racionalismo construtor, porque a Razão cria novas realidades e institui visões inéditas sobre o mundo.
Nicolas de Malebranche (1638-1715) procurou aperfeiçoar o sistema inicialmente proposto por René Descartes (1596-1650), apesar de aceitar as suas premissas em epistemologia e metafísica. Para tanto, Malebranche propõe-se a continuar a edificação de um sistema de verdades sobre o conhecimento e a constituição ontológica do que é conhecido. Para ambos, o que está para além dos objetos conhecidos (assim como do sujeito que conhece) encontra-se absolutamente livre de dúvida. Malebranche reconheceu que o critério cartesiano de verdade e justificação da clareza e distinção (base do sistema cartesiano) exige uma cláusula, a saber, a de que o nada não tem propriedades. Mas esta cláusula exige como condição de verdade ou validade que as ideias tenham um caráter divino, isto é, que façam parte da mente de Deus. O ocasionalismo constitui ainda outro ponto que contribui para a exacerbação do
caráter teológico do sistema de Descartes elaborada por Malebranche. O meu objetivo é descrever estas modificações, para mostrar como o edifício epistemológico exigido por Descartes se pôde tornar (pelo menos, pretensamente) mais imune à dúvida, por meio
dessa teologização. Para esse fim, comentarei algumas passagens d’A busca da verdade e das Meditações cristãs e metafísicas, de Malebranche, e das Meditações Metafísicas, de Descartes.
Nosso texto pretende abordar a relação entre a noção de método e a categoria de totalidade na obra de Georg Lukács. Propomos investigar como esta categoria opera na engrenagem argumentativa de História e Consciência de Classe e como ela se transforma e passa a operar na Ontologia do Ser Social. Em História e Consciência de Classe a categoria de totalidade é tomada em dois sentidos metodológicos, a saber: a soma das diversas esferas de vida para compor a ‘totalidade social’ e o processo de identidade entre sujeito e objeto. No Prefácio à Segunda Edição esta categoria sofre severa crítica e, por fim, na Ontologia do Ser Social ela se apresenta de maneira reformulada. O autor indica, no Prefácio, que a formulação inicial em História e Consciência de Classe, na perspectiva da identidade entre sujeito e objeto, apresentava uma preponderância do aspecto lógico em detrimento do aspecto ontológico. Já na Ontologia essa categoria passa a atuar metodologicamente como a articuladora das categorias de teleologia e causalidade para entendermos a categoria trabalho, em sua atividade de “pôr teleológico”, apresentada como “princípio ontológico fundamental”. A totalidade também se faz presente na argumentação da categoria de reprodução social, entendida como um ‘complexo de complexos’. Apresentamos a hipótese de que há semelhança na operação metodológica que a totalidade realiza na engenharia argumentativa luckcsiana, seja como soma das diversas esferas de vida em História e Consciência de Classe seja como articuladora das categorias causalidade e teleologia na composição do “trabalho” ou no entendimento da sociedade como um
complexo de complexos, na Ontologia do Ser Social. Tal hipótese sustenta a perspectiva de leitura a partir da idéia de uma ‘continuidade transformada’ da categoria nas obras em tela.
Em nosso trabalho, pretendemos apresentar a crítica da “ética da alteridade” à ontologia heideggeriana. Sob a alcunha de “ética da alteridade” consideramos as produções de Emmanuel Lévinas e Enrique Dussel. O primeiro, judeu-lituano-francês, tomará as implicações éticas da ontologia de Heidegger como abertura para a crítica. A questão que se põe é: o Outro, o sujeito humano que se revela ao Mesmo, àquele que compreende, também aparece no horizonte do mundo como ente à mão? Tendo como questão central a relação entre o Mesmo e o Outro, apresentaremos o modo que Lévinas propõe uma alteridade absoluta, o Outro como absolutamente Outro que não o Mesmo, enquanto crítica à ontologia. Em continuidade, trabalharemos a interpretação e o deslocamento que o latino-americano Enrique Dussel realiza junto à crítica levinasiana, propondo que a América Latina seja tomada como o Outro além da Totalidade europeia – sem, todavia, abandonar ou negar a ontologia. No desenvolvimento de nossa argumentação, concluiremos expondo que da crítica de Dussel não se produz uma ética da alteridade que rejeita a ontologia, mas que a situa prática e metodologicamente.
Abordagens filosóficas sobre a noção de identidade pessoal costumam contestar nossa visão ordinária sobre os conceitos de pessoa e de identidade pessoal. O objetivo dessa comunicação é justificar a importância da visão do senso comum para a noção de identidade pessoal. Pelo menos um elemento importante da tensão entre os dois modos de compreender a questão é pouco prezado pela análise filosófica, a saber, a relação entre a identidade pessoal e os nomes próprios. Farei uma breve análise da importância do conceito de nomes próprios para a compreensão da identidade pessoal a partir da teoria da referência de Saul Kripke. A seguir, repercuto as consequências dessa teoria no interior da discussão sobre identidade pessoal, tal como evidenciada tanto por teorias analíticas quanto por aquelas que entendem a identidade como a construção de uma narrativa. Para tanto, apresento uma variante do paradoxo de Teseu, de maneira a problematizar alguns critérios importantes para a reidentificação de particulares. Por fim, apresento respostas que respondem aos paradoxos gerados na identificação de pessoas. Concluo oferecendo algumas razões para não aceitarmos as consequências da tese parfitiana, especialmente no que diz respeito ao modo ordinário pelo qual atribuímos e relacionamos identidade pessoal e nomes próprios.
O projeto de naturalização da razão de Hume é usualmente compreendido por meio da sua submissão ao instinto, isto é, ele defenderia que existem princípios que a razão não deve questionar e os quais deve seguir, mesmo que suspeite da sua verdade. Essa leitura o distingue claramente dos cartesianos, que alegam a autossuficiência da razão. Todavia, é incapaz de diferenciá-lo satisfatoriamente dos fideístas, que defendem a necessidade da fé em virtude da insuficiência da razão para tratar dos assuntos humanos. A relação entre o instinto e a razão em Hume parece análoga à relação entre a fé e a razão para os fideístas: a razão é subjugada a uma faculdade que prescinde de fundamentação. Isso soa contrário ao espírito iluminista da sua filosofia. Meu objetivo é defender que, apesar de concordar com os fideístas que a razão é incapaz de justificar a si mesma, isso não significa que ela precisa de um suplemento. Os princípios naturais são eles mesmos princípios da razão, constituem-na, de modo que eles não são uma restrição externa, forçosa, mas o próprio modo saudável dela operar. É a sua integração, não a sua submissão, à natureza que tipifica o naturalismo humiano.