O objeto do presente trabalho é apresentar o posicionamento de Nietzsche com relação ao problema da liberdade, centrado, fundamentalmente, nos escritos tardios (1885 – 1889) do autor. Defendo que o referido problema se apresenta como um antagonismo que se forma entre: (i) as afirmações de cunho determinista de Nietzsche, que negam a existência de uma liberdade de optar entre contrários na ação, e (ii) a afirmação de noções de positivas de liberdade e responsabilidade. O problema coloca-se dada a afirmação simultânea de (i) e (ii); como pode Nietzsche criticar veementemente os conceitos de liberdade e responsabilidade e ainda assim utilizá-los em suas colocações propositivas? Inspirado no método de Wolfgang Müller-Lauter, intentarei mostrar que o antagonismo entre (i) e (ii) não é essencial mas aparente. Observar-se-á que a noção de liberdade defendida por Nietzsche mostra-se compatível com o determinismo, pois ressalta o papel ativo do “sujeito” enquanto “pedaço do destino”, sendo simultaneamente determinado e determinante para o todo. Ao eliminar a separação entre “sujeito” e mundo o filósofo dissolve o antagonismo entre determinismo e liberdade, de modo que desse compatibilismo advém uma interessante noção de “liberdade responsável”, pois o “sujeito” não mais é o “dono” de sua ação – nos moldes da liberdade enquanto espontaneidade, mas é responsável por ela e por sua repercussão no todo.
Referências
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__________.Sämtliche Werke: Digitale Kritische Gesamtausgabe - Digital version of the German critical edition of the complete work of Nietzsche edited by Giorgio Colli and Mazzino Montinari. Disponível em: