Ideologias linguísticas e regimes de testes de língua para migrantes no Brasil

Autores

  • Ana Luiza Krüger Dias Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, Goiás Autor
  • Joana Plaza Pinto Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, Goiás Autor

Palavras-chave:

Testes linguísticos, ideologias linguísticas, políticas linguísticas, migração.

Resumo

Neste artigo, analisamos o regime de testes de língua no contexto de migração transnacional para o Brasil e sua relação com ideologias linguísticas hegemônicas na construção de sistemas de diferenciação corporal. Para tanto, partimos da noção de teste enquanto instrumento formal para medição de proficiência, instituído como pré-requisito para entrada, residência e/ou aquisição de nacionalidade por migrantes em diversos países, funcionando como uma forma de barreira no controle das fronteiras estatais, conforme aponta a literatura pesquisada. Inicialmente, identificamos a existência de três tipos de testes linguísticos no Brasil: Certificação de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras), avaliação de língua portuguesa para médicos vinculados ao programa “Mais Médicos” e exigência de conhecimento de língua portuguesa nos processos de naturalização. A análise do corpus indicou diversas discrepâncias entre o estado da arte dos estudos sobre testes linguísticos em contexto migratório e a realidade brasileira, colocando em perspectiva a existência de um regime de testes linguísticos migratórios no país, na medida em que as articulações entre o seu aspecto linguístico e o seu aspecto de barreira são contraditórias. Os recursos indexicalizados nos documentos sobre testes no Brasil sinalizam, na verdade, a afirmação de uma autonomia no gerenciamento da língua portuguesa e a comoditização do ensino do português para estrangeiros como estratégia de mercado e vitrine da cultura brasileira globalizada, numa construção ideológica de correspondência estática e naturalizada entre língua oficial e nação, produzindo, para tanto, hierarquizações entre identidades migrantes “desejáveis” e “indesejáveis”.

 

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Biografia do Autor

  • Ana Luiza Krüger Dias, Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, Goiás
    Possuo graduação em Direito pela Universidade Federal de Goiás. Graduação em andamento em Letras (Bacharelado em Estudos Linguísticos) pela mesma instituição. Atualmente, sou bolsista de iniciação científica do CNPq, atuando principalmente nas temáticas de identidade e políticas linguísticas e metapragmáticas.
  • Joana Plaza Pinto, Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, Goiás
    Professora Associada da Universidade Federal de Goiás. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 2 - CA LL - Letras e Lingüística. Mestrado (1998) e Doutorado (2002) em Linguística na Unicamp sob orientação do Prof. Dr. Kanavillil Rajagopalan. Parte dos estudos de doutorado foi realizada na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris, 1999-2000), sob a supervisão do Prof. Dr. Jacques Derrida. Conduzo pesquisas em pragmática, gênero e feminismo, com uma abordagem multidisciplinar, principalmente nos seguintes temas: atos de fala, corpo, performatividade, identidade, regimes metadiscursivos, recursos metapragmáticos e migrações. Atualmente sou editora do periódico Signótica (UFG). Fiz parte da coordenação do GT "Práticas Identidades em Lingüística Aplicada", da ANPOLL (gestões 2008-2010 e 2010-2012), e fui membro do Advisory Council da International Language and Gender Association (2013-2015).

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Publicado

03-03-2017