Apresentação
DOI:
https://doi.org/10.35699/1982-3053.2026.66407Palavras-chave:
ApresentaçãoResumo
Esta edição da Arquivo Maaravi recebeu artigos para o dossiê “Direitos humanos na tradição judaica”. Na perspectiva judaica, os Direitos Humanos se originam na noção teológica de que todos os homens foram criados à imagem de Deus, o que lhes confere dignidade e obrigações de justiça, ética e solidariedade. Os fundamentos teológicos do judaísmo garantem a proteção da vida, do fraco, do estrangeiro, proporcionando direitos como repouso, educação e uma vida digna, que se resumem no conceito de “Tzedek”, que envolve a prática da justiça, retidão e responsabilidade ética que orienta a vida em sociedade, em suas escolhas e responsabilidades, e serve como base para uma vida em sociedade mais digna. Sendo assim, grandes valores que orientam a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, de 10 de dezembro de 1948, estão presentes na religião, na cultura e na tradição judaica, desde os primórdios. Mesmo antes de registrá-los na Bíblia, mas sobretudo nela e a partir dela, a tradição oral hebraica já evidenciava o apelo à Justiça, principalmente em defesa dos fracos e combalidos, como está presente no livro de Amós e de Miqueias; a igualdade entre as pessoas, o acolhimento ao estrangeiro, o direito de asilo, o repouso semanal, o direito de todo homem ao alimento, superpondo-se ao direito de propriedade privada, a sacralidade do salário, as questões legais sobre a propriedade, como em Deuteronômio e Provérbios; a solidariedade para com órfãos e viúvas, também ensinada em Deuteronômio e Provérbios; a condenação da usura, como visto em Êxodo e Neemias: a identidade de origem de todos os homens, como fator de igualdade entre os homens, o homem como imagem de Deus, como em Gênesis e Salmos; a possibilidade da libertação de prisioneiros, como em Isaías; a fraternidade, como em Levítico e Provérbios; a construção da paz, como em Miqueias; a solidariedade universal, como enaltece os Salmos. Essas e outras questões foram desenvolvidas no Talmude com foco na dignidade, como um direito inalienável e uma obrigação; na importância das obrigações coletivas, como a educação, a alimentação e a vida digna, com regulamentação de deveres familiares e sociais; na responsabilidade individual pela conduta ética. Esses temas que vão além da tradição judaica perpassam o trabalho de escritores, cineastas e outros artistas e pensadores, para quem a reflexão e a arte traduzem reflexões, paradoxos, engajamentos. O encontro dialógico proposto por Martin Buber, por exemplo, por intermédio do Eu-Tu, as “palavras-princípio” fundamentais para seu pensamento; a ficção de Franz Kafka e Isaac Bashevis Singer, marcadas pelo absurdo, pela alienação, a angústia existencial, que põem em xeque a própria questão do ser e da humanidade; bem como a noção de banalidade do mal, de Hannah Arendt, são alguns deles. Além do dossiê, compõem este número artigos de temática livre, arte, poesia, crônica e uma entrevista, bem como a nossa recomendação de livros.
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