A cítara e o verbo
Uma fenomenologia do imaginário no Dolce Stil Novo
DOI:
https://doi.org/10.35699/1983-3636.2026.62942Palavras-chave:
Doce Stil Novo, música, imaginário, filosofia medieval, poesia italianaResumo
Este ensaio investiga a constituição do imaginário poético do Dolce Stil Novo a partir de sua relação intrínseca com uma epistemologia musical de fundo pitagórico-agostiniano. A hipótese central é que a concepção do cosmos como sinfonia não é um mero tema, mas um princípio estruturante que informa a filosofia, a linguagem e a própria experiência amorosa cantada pelos stilnovisti. A análise percorre a obra de Guido Guinizelli, Guido Cavalcanti e Dante Alighieri para demonstrar como a mulher-amada opera como um agente de afinação espiritual, cuja presença ressoa nos spiriti do poeta, reconfigurando sua percepção. Examina-se a fisiologia do amor em Cavalcanti como um evento vibratório, a Beatriz dantesca como um milagre acústico e a doutrina do cor gentil em Guinizelli como uma política da ressonância seletiva. Conclui-se que a forma-poesia stilnovista, em sua materialidade fônica e ritmo, constitui um veículo tecnológico para a transcrição do inefável, cujo legado é a persistência, na cultura ocidental, da aspiração a traduzir o assombro metafísico em verbo e cadência.
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