Eles eram muitos e não tinham emprego

narrar o sofrimento psíquico após o colapso da modernização na literatura brasileira contemporânea

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17851/2358-9787.34.4.%25p

Palavras-chave:

Literatura brasileira contemporânea, Os pobres na literatura, subjetividade e processo social

Resumo

Este artigo tem por objetivo uma análise de dois fragmentos da obra Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato. Publicado em 2001, a característica da estrutura fragmentária do romance possibilitou a seleção de dois fragmentos como corpus, a saber, “#19 Brabeza” e “#44 Trabalho”, com vistas a discutir, de maneira focalizada, a figuração de experiências de desemprego como sintoma das contradições sociais à luz do processo histórico-social brasileiro. Para este fim, partindo das noções de “promessa desenvolvimentista”, de Cardoso (2010) e Schwarz (1999), e de “sofrimento psíquico”, de Safatle (2020), elaboramos a análise do corpus, em perspectiva interdisciplinar. Tendo em vista o pressuposto de que a experiência social do trabalho — ou de sua ausência — não se limita ao campo econômico, mas atravessa os processos de constituição subjetiva e os mecanismos de reconhecimento social, a hipótese que direcionou a abordagem foi de que era possível apreender na composição dos fragmentos uma experiência das personagens marcada por sofrimento psíquico oriundo do desemprego, o que permitiu inferir que tal experiência possui lastro histórico com longo percurso de sedimentação no processo histórico-social, especialmente no que tange à figura do “homem livre pobre” (Schwarz, 1990, 2012), bem como desvela o colapso das promessas da modernização. 

Biografia do Autor

  • Rafael Lucas Santos da Silva, Universidade Estadual de Maringá (UEM) | Maringá | PR | BR

    Realiza estágio de pós-doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras (PLE/UEM), com financiamento CAPES/PIPD. Doutor em Letras (2024), na área de Estudos Literários, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Também publicou artigos e capítulos de livros, com destaque para “Figurações do trabalho em Filmes de Plástico” (2024), “Elza Soares, em face da outremização e a busca de um projeto musical de superação da condição de subalternidade” (2021) e “Violência sistêmico-simbólica e precarização do trabalho em Passageiro do fim do Dia, de Rubens Figueiredo” (2020).

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Publicado

2025-12-19

Edição

Seção

Dossiê: Formas do coletivo na literatura brasileira moderna e contemporânea