Reconstituir pai e mãe no corpo da letra
o racismo em cenas de interpelação na literatura contemporânea em O avesso da pele e A água é uma máquina do tempo
DOI:
https://doi.org/10.17851/2358-9787.34.4.%25pPalavras-chave:
literatura e racismo, cena de interpelação, despossessão, memória e imaginaçãoResumo
Este artigo mobiliza as noções de cena de interpelação e despossessão a partir da obra de Judith Butler como mediadora das tensões que definem subjetividades e intersubjetividades na recomposição de uma história familiar e individual, em O avesso da pele (2020), de Jeferson Tenório e A água é uma máquina do tempo (2022), de Aline Motta. O elo entre literatura, individualidade e tessitura do corpo social é tematizado nessas obras pelo enlace entre a operação do racismo e a recuperação da história do passado familiar. A escrita dos autores inventa uma dramaturgia de resistência que fabula a reconstituição ficcionada de pai e mãe como um caminho trilhado pela escrita ética que compõem, através do corpo da letra, um jogo que redefine as condições da experiência, move afetos e cria zonas de indeterminação como espaços de partilha, de resposta, de reciprocidade.
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