O que afeta o corpo ocupa o texto (e vice-versa):
Uma análise de A ocupação de Julián Fuks
DOI :
https://doi.org/10.17851/2358-9787.34.3.29-43Mots-clés :
corpo, narrativa, reexistência, ocupação, hospitalidadeRésumé
Este artigo explora o romance A Ocupação, de Julián Fuks, abordando a intersecção entre corpo, narrativa e espaço político. A obra se estrutura em torno da experiência do narrador, Sebastián, um escritor que testemunha a ocupação do Hotel Cambridge, em São Paulo, por um grupo de pessoas em situação de rua, incluindo, migrantes e refugiados. No decorrer da narrativa, a voz de Sebastián é gradualmente ocupada pelos relatos dos moradores do edifício, criando uma sobreposição entre a materialidade da ocupação urbana e a ocupação do texto. Assim, Fuks elabora um romance em que os corpos das personagens, deslocados e vulnerabilizados, ressoam na construção textual. A análise considera a escrita como um espaço de resistência e testemunho, discutindo a maneira como o romance tensiona as fronteiras entre ficção e realidade. O objetivo é investigar como A Ocupação expande os limites da autoficção ao permitir que outras vozes se inscrevam em sua estrutura, transformando a escrita em um gesto de hospitalidade e deslocamento.
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