Tortura e desaparecimento forçado no conto “Dôia na janela”, de Roberto Drummond
DOI:
https://doi.org/10.17851/2358-9787.35.2.%25pPalavras-chave:
desaparecimento forçado, representação, terrorismo de estado, torturaResumo
Este artigo analisa a representação da tortura e do desaparecimento forçado no conto “Dôia na janela”, de Roberto Drummond. Publicado em 1975, em A morte de D. J. em Paris, livro de estréia do autor, o conto tem sua história principal tradicionamente interpretada como um surto alucinatório vivido pela personagem protagonista, confinada em uma clínica psiquiátrica. A partir de uma abordagem voltada para o texto, em parte herdada do formalismo russo e do new criticism, e da consideração do trabalho com a forma literária modulado por figuras de linguagem, procura-se mostrar, inicialmente, que o conto é constituído de dois planos fabulares que instauram ambiguidade na representação dos dois tipos de crime. Isso ocorre porque seus dois planos fabulares articulam-se num jogo de figura e fundo afim às artes visuais e a determinados recursos da linguagem cinematográfica (zoom in, zoom out, close up). Mediante tais procedimentos, o conto desloca para o leitor a tarefa de assumir uma posição interpretativa em relação à possível veracidade dos crimes nele sugeridos. Essa posição depende, nesse momento da interpretação, não só da contextualização histórica das referências e alusões nele presentes – o contexto de repressão política e de terrorismo de Estado da ditadura civil-militar da década de 1970 no Brasil –, mas da consideração de que a história e a sociedade são constitutivas da forma literária, não só como tema, mas como uma materialidade outra, uma vez que são parte integrante, e não meros fatores externos, da forma literária e dos efeitos de sentido do texto.
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