Para tratar do problema da justiça na República, Sócrates propõe fundar uma cidade no discurso. Partindo desse procedimento, ele apresenta a tese de que os homem se unem em uma synoikía (συνοικία) – comunidade de pessoas que vivem juntas – pois são carentes de muitas coisas. Outra tese apresentada é que cada homem possui uma natureza e essa lhes confere determinada capacidade demiúrgica, empregada para aplacar as carências. No presente texto, pretendemos analisar as relações que os membros dessa synoikía estabelecem entre si nos dois contextos que caracterizam a cidade feita de lógos: no primeiro, quando a cidade é considerada sadia, ordenada e os citadinos devotam o trabalho para a satisfação de suas necessidades mais prementes; no segundo, quando a cidade adoecida, onde a divisão do trabalho se desfez causada pela valoração dos bens, a comunidade fica inclinada à stasis. Como método destacaremos o exercício da demiurgia no processo de transformação da pólis que nasce saudável e torna-se adoecida. A síntese do problema está na própria mudança dos caráteres dos membros da pólis que, se em um primeiro momento pautavam-se pela simplicidade e ordenação, posteriormente enveredam-se pelos excessos e pelo luxo.