A edição do segundo semestre de 2016 da revista Outra Margem está disponível para visualização e download em PDF.
Nosso objetivo, neste artigo, é mostrar a crítica da arbitrariedade da linguagem, a ilusão do impulso à verdade e do intelecto humano. Elaborada por Nietzsche, em seu ensaio Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, o filósofo alemão reflete que para o homem conviver em estado de paz em sociedade, ele precisa forjar conceitos por meio de seu intelecto para sobreviver diante da natureza. A partir disto, mostraremos como tal crítica questiona o valor moral dado a verdade e a mentira e alcançar, com isto, o momento em que nosso impulso estético surge diante da vida.
O trabalho parte das conclusões realizadas por Nietzsche acerca da origem da linguagem e da consciência como decorrência necessária da natureza gregária dos seres humanos, sendo eles muito fracos e impotentes no interior do seio do mundo animal. Assim, o trabalho analisa em Nietzsche a semelhança entre a reflexão sobre mitos ocidentais do nascimento da humanidade, o do Gênesis e o de Prometeu e a sua singular forma de lidar com a cisão fundamental entre humano e animal, e o surgimento da linguagem e da consciência como uma forma de sobrevivência frente à natureza, que vai se manifestar no campo do conhecimento e na linguagem própria desse conhecimento como uma necessidade de dominar, subjugar, não só essa natureza externa, mas também aquilo que no próprio homem é natural. Depois disto, uma outra visão sobre a relação entre a linguagem e o exílio é apresentada, a que está presente nos textos de juventude de Walter Benjamin, onde o autor analisa o mito da queda presente no Gênesis. No livro bíblico, Benjamin aponta para o fato de que o exílio e a queda primordial não coincidem com o surgimento da linguagem. Ali, a linguagem é anterior à queda do paraíso. No paraíso já havia sido concedida ao homem uma linguagem, a linguagem do nomear, concedida por Deus a Adão. Assim, o que a árvore do conhecimento representa é uma nova pergunta, um novo uso da linguagem que não mais responde à criação divina. Mesmo o objeto dessa nova língua não tem mais significação nenhuma, ele só existe enquanto palavra vã, conhecimento externo à linguagem.
Compreendendo "filosofia comparada" como a disciplina filosófica que lida com as filosofias ou pensamentos não-ocidentais, pretendemos discutir como uma certa definição de filosofia informa a própria aproximação de ocidentais a filosofias não-ocidentais. Tendo como foco algumas práticas de filosofia comparada, mostraremos que, apesar de todos os esforços dos filósofos comparativistas, elas falham por ainda se guiarem por conceitos e metodologias nascidos e desenvolvidos no ocidente, sendo alheios à alteridade, pois a filosofia ocidental somente recentemente começou a se preocupar com a alteridade. Como alternativa, propomos uma reformulação de duas práticas basilares da atividade filosófica: ler e traduzir. Através desta reformulação, acreditamos que poderemos, enquanto pesquisadores treinados na filosofia ocidental, alcançarmos uma aproximação da filosofia não-ocidental que seja mais dialógica e aberta à alteridade. Este caminho desembocará na questão do idioma e sua relevância ao próprio fazer filosófico. A filosofia japonesa nos fornecerá um caso de pensamento idiomático onde a potência filosófica surge antes da "idiomaticidade" desta língua do que do conteúdo cultural que serviria como objeto à filosofia. Assim, pensamos que um filosofar transformado pelos idiomas permite a inclusão da alteridade do não-ocidental no diálogo que faz a filosofia.
Foi apenas após a chegada do Idealismo e Romantismo alemães que o problema do caráter linguístico da filosofia se tornou algo impossível de ignorar. Foi nesse período que a filosofia reconheceu a si mesma como uma disciplina que depende da linguagem e, assim sendo, pode-se traçar a Hegel o primeiro momento no qual a filosofia tradicional começou a refletir sobre esse assunto. Não é ocasional que seja assim, pois que Hegel pensou sua filosofia também como uma pedagogia e nada mais natural a uma pedagogia do que pensar sobre como ensinar. Nosso trabalho argumenta que Hegel é uma espécie de ponto de virada i.e. argumentamos que Hegel foi o primeiro filósofo tradicional a discutir os meios pelos quais a filosofia se expressa e, por causa disso, ele é de alguma forma responsável pela abertura dessa discussão sobre a forma de expressar pensamentos em filosofia. Argumentamos, ainda, que a discussão hegeliana sobre a estrutura do Sistema leva à discussão do século XX sobre Ensaios, tornando a oposição ensaio-sistema algo nada ocasional. Por fim, discutimos alguns aspectos do ensaio para tentar traçar alguns elementos de sua estrutura.
Neste artigo apresentarei uma leitura do ensaio Sobre Música Popular (1941) de T. W. Adorno (1903-1969) enfatizando os elementos da produção ou os aspectos “objetivos” do fetichismo da mercadoria cultural. Considero aspectos “objetivos” do fetichismo quando o fetichismo se refere enfaticamente à produção de mercadorias. Esse ensaio de Adorno fez parte dos resultados de pesquisa de rádio da Universidade de Princeton, intitulado de Princeton Radio Research Project, feita nos Estados Unidos entre 1938 a 1940, cujo objetivo foi a análise das programações radiofônicas. Estruturalmente, esse ensaio está dividido em três seções: [1] O Material Musical; [2] Apresentação do Material; [3] Teoria do Ouvinte. Nas duas primeiras seções, em O Material Musical e em Apresentação do Material, Adorno enfatiza os aspectos “objetivos”, ou da produção das mercadorias culturais da música popular; e na última seção, em Teoria do Ouvinte, ele enfatiza os aspectos “subjetivos”, ou do consumo dessas mercadorias. Enfim, neste artigo tentarei esclarecer como Adorno tratou teoricamente os aspectos “objetivos” do fetichismo da mercadoria cultural por meio de suas análises específicas da produção da música popular americana feitas no Princeton Radio Research Project supondo seus modos de recepção.
o texto reconstitui o debate entre Hans Kelsen e Eric Voegelin, no Pós-Guerra, concernente à relação entre filosofia e totalitarismo. Voegelin responsabiliza o formalismo neokantiano – e em especial o juspositivismo desenvolvido por Kelsen – por pavimentar o caminho, no mundo germânico, para a emergência do nazi-fascismo. Kelsen, por sua vez, acusa Voegelin de professar uma filosofia absolutista, incompatível com o sistema democrático. Procuramos demonstrar que ambos, apesar das evidentes divergências, trabalham no seio de um horizonte de sentido comum. A obra de Hannah Arendt servirá como parâmetro de comparação.
As seis décadas da construção do Fausto de Goethe amalgamaram arte, cultura, vida, ciência e movimentos como o romantismo e o classicismo de Weimar. Crítico de sua época e de vários temas artístico-filosóficos, Goethe buscará na modernidade e na Grécia clássica não somente a pureza e a beleza das formas para enriquecimento de seus escritos, mas também a análise e a problematização da moral. E será especificamente na tragédia de Gretchen que o poeta tentará elaborar preceitos éticos fora dos padrões estabelecidos pela “esfacelada” Europa moderna (iluminista). Assim sendo, é nesse contexto que nosso trabalho será constituído. Tentaremos definir a possibilidade de uma moral no Fausto I de Goethe e ao mesmo tempo mostrar como o poeta nos conduz a questionar a moralidade kantiana, isso porque na tragédia tal assunto parece se estender ao sensível e ao desejo (talvez pela influência da filosofia de Rousseau) e em Kant, como se sabe, a moral, assim como a liberdade, é plena quando puramente ligada aos princípios categóricos da razão. Dessa forma, veremos até que ponto Goethe adere aos ideais de Kant para melhor operar com a moral no drama de Gretchen.
O objetivo deste estudo é analisar a noção de liberdade na filosofia materialista e determinista de Barão de Holbach (1723 – 1789), especificamente, no seu Sistema da Natureza ou Das leis do mundo físico e do mundo moral, de 1770. A liberdade será o nosso tema principal para a discussão, portanto, vamos nos guiar por questões que fazem parte desta área temática, por exemplo: o livre-arbítrio é possível? Caso ele seja, é compatível com o determinismo do mundo físico? Diante dessas questões, tentaremos dar as devidas respostas, primeiramente, com a exposição dos princípios acerca da necessidade e do fatalismo, bem como as críticas à ideia teológica de livre-arbítrio que fazem parte do materialismo ateu de Holbach. Com isso, veremos a viabilidade de seus argumentos na elaboração de um determinismo, cujo escopo é tanto saber compreender a dinâmica da natureza como um todo, quanto poder refletir acerca do comportamento individual e coletivo dos seres humanos.
O artigo se dedica ao exame da filosofia natural de Margaret Cavendish que, dentre outros objetivos, pretende contribuir para o enfraquecimento de hierarquias de gênero subjacentes às tradições filosóficas e científicas da Inglaterra do século XVII. Algumas das estratégias argumentativas utilizadas por Cavendish para atingir seu objetivo são ambivalentes, pois podem levar, tanto à dissolução dessas hierarquias de gênero, quanto à sua justificação - o que desemboca em tensões ou conflitos entre alguns elementos de seu pensamento. Inicio com a análise da filosofia natural de Cavendish: primeiramente, constituída por uma teoria corpuscular atomista, que, posteriormente, fora abandonada e substituída por uma teoria de caráter materialista orgânico. Prossigo com a apresentação das tensões ou conflitos da filosofia de Cavendish, especialmente explícitos nas implicações da admissão do ceticismo e de uma hierarquia da matéria.
Este artigo trata da importância da forma dialógica com a qual Platão apresenta sua filosofia. Escrevendo diálogos, Platão teria buscado mimetizar discussões em torno de temas filosóficos sem, com isso, revelar imediatamente o sentido intencionado de sua filosofia. Platão ainda demonstrou certa preocupação com os limites da escrita em filosofia, questionando seu alcance; mas encontrou na forma dialógica uma maneira aberta e viva, próxima da discussão que se efetiva na oralidade, para representar a procura pelo saber, expondo a atividade filosófica mediante dramas cuidadosamente elaborados. Embora encontremos na obra do filósofo a hipótese de que a escrita não serve perfeitamente como meio de comunicação e apreensão da sabedoria, Platão parece ter encontrado nela um importante instrumento para a promoção de um pensamento filosófico que escapasse à mera exposição de uma doutrina.
Um dos modos de acesso à relação que a escrita estabelece com o desejo na filosofia pode ser pensado nos termos da discussão sobre o ensaio como forma – tanto de apresentação da filosofia (em Benjamin) quanto como de resistência no pensamento (em Adorno). Este trabalho pretende, ao esboçar uma breve história da reflexão da forma do ensaio no século XX a partir de Lukács, Benjamin e Adorno, apresentar como o ensaio, ao reabilitar as dimensões estética e histórica do pensamento na filosofia, sugere uma nova relação com o "filosofar"; relação esta de transformação (Umbildung) advinda de uma nova reorganização do conhecimento com a linguagem.
A atividade política intensa e delicada de nossa contemporaneidade têm colocado em questão categorias e sistemas teóricos, têm exposto insuficiências e crises de nossos modos de organização social. Os acontecimentos contraditórios e a complexidade das situações críticas têm exigido a constituição de novas categorias e modelos conceituais que respondam às crises. Nesse ínterim, surge a filosofia latino-americana de Enrique Dussel como construção alterativa e alternativa à tradição filosófica, desenvolvendo um marco categorial crítico que possibilita, ao menos, pôr em questão os fundamentos clássicos do pensamento político. Tomando posição de exterioridade sistêmica, a partir da periferia e não do centro, Dussel desenvolve um método de interpretação filosófica e produção conceitual peculiar. Neste movimento, no campo da filosofia política, procura refundar ontologicamente a categoria de poder político – que passou insuspeito pela Modernidade, interpretado como dominação e violência (o caráter negativo do poder ou ainda a corrupção fundamental, a fetichização do poder) –, de modo a apresentar o caráter positivo do poder enquanto vontade-de-vida. Para tal, o filósofo argentino-mexicano remonta o processo de formação da comunidade política partindo do processo evolutivo da vida e da corporalidade do vivente humano. Neste quadro, o intuito do presente trabalho é mostrar o percurso que permite fundar positivamente o poder político a partir da formação da comunidade política.
Para tratar do problema da justiça na República, Sócrates propõe fundar uma cidade no discurso. Partindo desse procedimento, ele apresenta a tese de que os homem se unem em uma synoikía (συνοικία) – comunidade de pessoas que vivem juntas – pois são carentes de muitas coisas. Outra tese apresentada é que cada homem possui uma natureza e essa lhes confere determinada capacidade demiúrgica, empregada para aplacar as carências. No presente texto, pretendemos analisar as relações que os membros dessa synoikía estabelecem entre si nos dois contextos que caracterizam a cidade feita de lógos: no primeiro, quando a cidade é considerada sadia, ordenada e os citadinos devotam o trabalho para a satisfação de suas necessidades mais prementes; no segundo, quando a cidade adoecida, onde a divisão do trabalho se desfez causada pela valoração dos bens, a comunidade fica inclinada à stasis. Como método destacaremos o exercício da demiurgia no processo de transformação da pólis que nasce saudável e torna-se adoecida. A síntese do problema está na própria mudança dos caráteres dos membros da pólis que, se em um primeiro momento pautavam-se pela simplicidade e ordenação, posteriormente enveredam-se pelos excessos e pelo luxo.
Neste artigo tratamos da crítica libertariana de Robert Nozick à justiça como equidade de John Rawls, bem como a resposta rawlsiana à Nozick, visando explorar aspectos até então não considerados nesse debate e sua importância para o problema filosófico da justiça. Nozick realiza um movimento de contextualização da pergunta pela justiça que, segundo ele, tem de assumir a intuição básica de que os sujeitos da justiça são indivíduos livres, “que têm direitos”, bem como os processos históricos nos quais contratos voluntários entre sujeitos livres dão origem aos direitos adquiridos. Se levadas a cabo, essas intuições e os argumentos delas se seguem levam à rejeição de teses centrais de Rawls que balizaram o debate contemporâneo acerca da justiça. A resposta rawlsiana aqui oferecida à crítica de Nozick joga luz sobre a tentativa deste de dar ao conceito de liberdade primazia na pergunta pela justiça, mostrado suas limitações. E, em um momento posterior, argumenta-se sobre o porquê do problema da justiça não poder ser colocado nos termos que Nozick propõe. Como resultado desse debate, pretende-se oferecer um conjunto de considerações para se pensar acerca do problema da justiça no debate contemporâneo.
As discussões filosóficas sobre o tema da liberdade que se estendem ao longo dos séculos são marcadas pela oposição flagrante entre duas visões de mundo: o determinismo e o livre-arbítrio, em suas diversas formulações. Os respectivos argumentos em favor de cada uma dessas posições geram um dilema aparentemente insolúvel. Esse artigo pretende mostrar como a noção sartreana de situação sintetiza uma relação interna entre o domínio daquilo que é livre e do que não é, permitindo à filosofia da liberdade de Sartre apresentar uma possível solução para o referido dilema, na forma de um paradoxo.
Trata-se de investigar a confluência de liberdade e pulsão da escrita no texto de Clarice Lispector. A liberdade constitui um conceito clássico da filosofia, visto que dentre as interrogações fundamentais do ser humano está aquela acerca de sua própria liberdade. O termo “liberdade” figura ao longo de toda a obra de Clarice e, especialmente, nos livros Água viva (1977) e Um sopro de vida (1978). Ali, somos levados a percorrer os meandros da liberdade não só em sua vertente genérica, como atributo do gênero humano, mas também em sua vertente artística, como experiência particular da criação. Por outro lado, a associação feita pela narradora de Água viva entre o ato criativo e uma entrega de si remete-nos à pulsão da escrita e a um certo páthos que afeta aquele que escreve. Como se combinam atividade e passividade no ato de escrever? Em que medida o escritor escreve seu texto e em que medida é escrito por ele? Nossa hipótese é que a articulação da questão da liberdade e da noção de pulsão da escrita, a partir da obra de Clarice Lispector, permite criar um campo de trabalho para essas interrogações.