Construções insubordinadas causais no português brasileiro
um estudo da fala espontânea
DOI :
https://doi.org/10.17851/2237-2083.34.1.348-370Mots-clés :
insubordinação, construções causais, Gramática de Construções;, fala espontâneaRésumé
Resumo: Nesta pesquisa, analisamos as construções insubordinadas na fala espontânea do português brasileiro, com foco nas construções causais, como eu acho que sim // porque ela trabalha o dia inteiro //. Adotamos como base teórica a Gramática de Construções (Croft; 2001, 2022) e os trabalhos sobre insubordinação, desenvolvidos na literatura sobre o tema (Bossaglia; Mello e Raso, 2020; Evans, 2007; Mithun, 2008). De acordo com esse aparato teórico, a relação entre partes da construção é de tipo semântico. Conforme mostram os dados deste artigo, a insubordinada é prosodicamente independente, mas exerce funções discursivas próprias. Por se tratar de dados autênticos e representativos da diamesia falada, as 286 ocorrências foram extraídas do corpus C-ORAL BRASIL (Raso; Mello, 2012) e as construções analisadas foram observadas quanto à função pragmática e conteúdo semântico. Os dados mostraram que as construções insubordinadas causais analisadas, apesar de apresentarem sintaxe de subordinadas causais, estabelecem relações semânticas com as orações que as precedem, especificamente uma relação de justificação enunciativa, de modo que a sintaxe de subordinação fica em segundo plano. Logo, a construção é vista como um resultado do uso da língua. Há, ainda, casos em que as insubordinadas apresentam uma relação com outro ato de fala contíguo, no qual, diferentemente das insubordinadas, uma aparente oração principal é identificada e, formam, portanto, as construções semi-insubordinadas.
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