Mulheres e cozinha
As contradições da experiência de uma tradicional festa italiana de São Paulo, Brasil
DOI:
https://doi.org/10.35699/2316-770X.2023.40423Palavras-chave:
mulheres, culinaria, segurança alimentar e nutricional, cidades, culturaResumo
Partindo da relação socio-histórica entre alimentação e mulheres e pautado em uma perspectiva etnográfica, este artigo teve o objetivo de analisar a experiência de mulheres na cozinha da Festa de Nossa Senhora da Achiropita, no bairro do Bexiga, São Paulo. A observação participante dos trabalhos destas voluntárias aponta contradições de mulheres que sustentam a produção de comidas típicas italianas em um espaço de cuidado e afeto mútuos, bem como de disputas e hierarquia fortemente marcada. A presença masculina aparece como apoio: remunerada, em tarefas que exigem esforço físico ou pela religiosidade, reforçando os papéis sociais de gênero. Esta experiência mostra o papel das mulheres na manutenção da cultura alimentar do Bairro, como conhecedoras de um saber-fazer culinário compartilhado com pessoas de diferentes origens. Permanece o desafio da sustentação desta cozinha diante das novas gerações de mulheres que podem escolher outros projetos de vida e outras relações com o cozinhar.
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