As vulnerabilidades do impensado
questões de “forma” do pós-colonialismo português e oslegados do pensamento de Eduardo Lourenço
DOI:
https://doi.org/10.35699/2317-2096.2025.57874Palavras-chave:
impensado, racismo, linguagem, pensamento decolonial, ontologia, hauntologyResumo
Este ensaio examina o conceito de impensado, formulado por Eduardo Lourenço, no contexto do passado colonial africano e suas repercussões contemporâneas. A análise centra-se na ausência de uma conscientização formal – e até mesmo gramatical – desse legado traumático na sociedade portuguesa, destacando como esse impensado perpetua a impossibilidade de uma reflexão crítica sobre a violência colonial. Discute-se, ainda, a relação entre esse impensado e a formulação do racismo como inconsciente, tanto em Portugal quanto na Europa, evidenciando o impasse na articulação da violência racial, tanto institucional como do cotidiano, e a permanência de linguagens, códigos, imaginários e estéticas excludentes. A persistência de uma retórica neo-lusotropicalista reforça essa exclusão. Por fim, analisam-se as respostas de pensadores e artistas das novas gerações africanas e afrodescendentes em Portugal, que mobilizam gramáticas decoloniais para nomear o indizível e tornar consciente o reprimido, reivindicando, assim, a interioridade historicamente negada às populações negras durante a longa opressão colonial.
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