Cartografias do Ori em “Amnésia”, de Eliana Alves Cruz
DOI:
https://doi.org/10.35699/2317-2096.2026.68914Palavras-chave:
Cartografia do Ori, memória, ancestralidade, literatura, Eliana Alves CruzResumo
Este artigo analisa o conto “Amnésia”, de Elianan Alves Cruz, a partir da Cartografia do Ori (Penna, 2021), compreendida não apenas como base epistemológica, mas como dispositivo de diálogo e proposta de leitura da narrativa literária. Ancorada no pensamento animista afro-brasileiro, a análise investiga como memória longa, ancestralidade e trauma histórico se articulam na experiência da personagem Jussara. A leitura estabelece um gesto comparatista entre o percurso da protagonista e as narrativas do preto velho Pai Benedito, nas quais a reorganização da memória se dá entre rezas, sussurros do mar e reminiscências afro-brasileiras. Em ambos os casos, argumenta-se que a enstase – entendida como viagem interior de retorno ao ponto fundador do trauma – possibilita a reinscrição subjetiva diante de contextos de violência e apagamento. O artigo relaciona a amnésia individual de Jussara ao esquecimento histórico da escravidão no Brasil, materializado em processos como o soterramento do Cais do Valongo, evidenciando a persistência de uma amnésia nacional seletiva. Conclui-se que o conto constrói uma poética de reencantamento do mundo, na qual a Cartografia do Ori opera como mapa simbólico de resistência, permitindo a reconstrução de identidades negras em contexto afrodiaspórico.
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