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Revista sobre Futebol, Linguagem, Artes e outros Esportes

Este periódico eletrônico de fluxo contínuo, quadrimestral, tem o objetivo de atender às demandas crescentes de publicações de pesquisas sobre o esporte relacionadas aos estudos da linguagem e cultura, das ciências humanas, artes e mídias e do lazer.

A FuLiA/UFMG aceita submissões, preferencialmente de doutores, de artigos e ensaios para as seções Dossiê e Paralelas, além de textos para as seções Resenha, Entrevista e Tradução/Edição.

A revista conta ainda com a seção Poética, sob a responsabilidade dos editores, que pretende publicar áudios, imagens, vídeos e textos artísticos em diálogo com o dossiê temático. 

Serão aceitos textos em português, espanhol, inglês, francês, italiano e alemão

A revista está vinculada ao Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes (FULIA), fundado em 2010, da Faculdade de Letras da UFMG. 

CHAMADA v. 7, n. 3 (2022): submissão até 15 de junho de 2022

2021-09-13

ESPORTES E HOMOEROTISMO

Imagem: Victor Arruda. In: “Reis de paus” (2017), de Luiz Carlos Lacerda.

Há mais de cem anos o esporte moderno vem ganhando destaque na vida das pessoas, de várias formas e muitas maneiras. Como fenômenos socioculturais, manifestações esportivas angariam amplos públicos, de praticantes a torcedores, de especialistas a pesquisadores, passando inclusive por telespectadores, que se vinculam ao mundo esportivo, amador ou profissional, de variadas formas. Torcer por ou simplesmente assistir a esportes desencadeia sentimentos, afetos, evoca experiências e desperta curiosidades. O torcer por um atleta ou por um time de futebol, presenciar uma conquista de medalha e mesmo ver uma corrida de Fórmula 1 geram descargas de sentimentos coletivos, quase libidinais, difíceis de serem ignorados.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020/2021 sublinharam a importância das manifestações esportivas no entrecruzamento com dimensões políticas das práticas corporais. Não apenas se viu uma série de declarações sobre sexualidades não heteronormativas e cisgênero, como o pódio foi usado para denunciar o racismo, a xenofobia, a intolerância, o comprometimento da saúde mental e defender um maior diálogo com novas corporalidades e expressões de ser (humano), circulantes até no esporte de alto nível.

Isso abre precedente para pensarmos tais questões na próxima Copa do Mundo de Futebol de homens, a ser organizada pela Federação Internacional de Futebol e Associados (FIFA), no Catar, em 2022. Pode-se indagar se, caso se repitam tais demandas por parte de torcedores/jogadores, como o país árabe se posicionará frente à homossexualidade nestas manifestações, visto que a considera uma prática ilegal e motivo de reclusão.

O esporte é permeado por relações de poder que visam normalizar corpos, afetos e desejos, e sem dúvida, afeta vidas, produzindo modos de olhar, pensar e sentir, nos educando para algumas formas de “ser” e “estar” no mundo em relação à nacionalidade, religião, “raça”, classe social, gênero e sexualidade. Para além de um cenário para demonstrações motoras e performance, o esporte também é um “campo” repleto de práticas socioculturais que desnudam e transformam as relações humanas.

A partir do panorama traçado, interessam-nos aqui formas de conexão entre corpos, maneiras de amar em conjunto, expressões de homoerotismo desencadeadas por meio de práticas esportivas, sentidas, assistidas, vividas ou experenciadas: em momentos de confraternização de um gol, de júbilo por uma vitória alcançada, de prazer no abraço suado após horas extenuantes de uma escalada, de celebração alegre do cumprimento de uma maratona ou de dor amarga pela perda de título ou vaga em um campeonato. Nesses instantes, corpos vibram juntos, sintonizam-se, amam-se, regozijam-se, reconhecem-se, erotizam o momento, vertem-no em sublime. É aí está instalado o amor homofílico, de amizade pura, de comprometimento e reciprocidade. Que pode carregar consigo o desejo (homo)sexual, mas não necessariamente. De qualquer forma, tais “dimensões” fundem-se homoeroticamente. O homoerotismo contempla uma diversidade de práticas, vontades e desejos que acionam corpos, de homens e de mulheres, hetero, homo, bisexuais ou mesmo transexuais. Portanto, o esporte moderno é um espaço social no qual o homoerotismo está presente, quer queiram ou não seus apreciadores.  A interação coletiva (ou interpessoal) que provoca, carrega desejos, corporalidades, afetividades, gozos de diversas formas e em graus diferenciados.

Tendo isso em consideração, a proposta deste número da FuLiA/UFMG pretende convidar contribuições teóricas, artísticas, literárias ou poéticas sobre esportes e homoerotismos, entendido como práticas sociais, sexuais e afetivas de homens e/ou de mulheres em relação a outros/outras do mesmo sexo ou gênero, de modo a destacar vivências e experiências construídas coletivamente por meio dos fenômenos esportivos contemporâneos.

Coorganizadores: Dr. Wagner Xavier de Camargo (Universidade Federal de São Carlos/Brasil) e Dr. Joaquín Piedra de La Cuadra (Universidad de Sevilla/Espanha).

CHAMADA v. 8, n. 1 (2023): submissão até 15 de julho de 2022

2021-08-22

FUTEBÓIS, CARNAVALIZAÇÕES, PERFORMANCES: sonorizações da cultura popular 

Imagem: Bonecos de Olinda (Web).

 

Há uma inquietante definição do antropólogo Tim Ingold a respeito do fenômeno da sonorização, que para ele se sustenta pelo e num movimento indissociável à vida: “o som, assim como a respiração, é experimentado como um movimento de ir e vir, inspiração e respiração. Se é assim, então deveríamos dizer do corpo, quando canta, sibila, assobia ou fala, que é sonorizado” (2011).

O presente Dossiê é inspirado nessa indissociabilidade entre os sentidos, apreensão e simbolização sensível das coisas ao nosso redor, que desse ponto de vista se recusa à divisão das tarefas sensoriais (ver, ouvir, tocar....) no ato de produzir conhecimento. Já Steve Feld defini o som como “um sistema abstrato e arbitrário de representações fonêmicas e fonéticas, mas como um sistema que motiva tanto a relação entre sensação e conhecimento perceptivo do mundo quanto a capacidade de engajamento quase imediato, simultaneamente abstrato e sensorial com o mundo” (2020).

Tais percepções amparadas nos sentidos, que animam os corpos, nascem dos órgãos (olhos, ouvidos) que se colocam à disposição não apenas como artefatos ou “instrumentos de reprodução” e aferição representacional de realidades externas, mas como meios de observação e percepção de mundos inventados por nós. E na medida em que é por intermédio dos sentidos que nos movemos (caminhando, pulando, cantando, jogando) em estreita interrelação simbólica, constituímos culturas e modos de vida singulares e relacionais, que em atos contínuos sempre nos colocam vendo, ouvindo, olhando, falando, tocando, cheirando.

Essa teoria vitalista, que dialoga com a noção de “fato social total” do antropólogo Marcel Mauss, alcança os temas que podem ser desenvolvidos nesse presente Dossiê, que buscará contemplar propostas que misturem ou coloquem em relevo nas práticas futebolísticas as formas de sonorização emanadas das linguagens performáticas ou dos silêncios impostos por conjunturas específicas. As arquibancadas vazias dos estádios na pandemia fizeram ecoar outros sons que levaram à necessidade de outras escutas. Trata-se de apreender “a construção emocional e social no e pelo som” (Feld, 2020) das performances individuais e coletivas.

Portanto, o Dossiê procurará agregar reflexões que possam oferecer experiências de atores concretos, sejam jogadores, torcedores, coletividades torcedoras e carnavalescas em performances nas ruas, nos estádios, nas arquibancadas, nos espaços de ajuntamento popular, que evocam estados de efervescência e engajamento promovidos pelo jogo. Ou explicitando o caráter socioantropológico presente na etnomusicologia contemporânea: “Investigações etnomusicológicas recentes valorizam a dinâmica social, na medida em que a pesquisa da música em dada comunidade representa, simultaneamente, um projeto comunitário. Ao invés da retórica acadêmica, prevalece aqui a voz dos membros dessa comunidade” (Oliveira Pinto, 2008).

As sonorizações vindas das múltiplas práticas ou as escutas dos sons futebolísticos podem ser capturadas em diversos rituais, performances corporais carnavalizadas – mobilizando esse amplo conceito cunhado por Mikhail Bakhtin –, expressas nos cantos, gritos de guerra, arranjos percussivos, execução de instrumentos, vocalizações e corporalidades de práticas transgressoras ou insurgentes, enfim, linguagens sonoras que elevam a performance esportiva num vórtice de significados em que jogar e olhar (torcer), e também ouvir, pactuam os múltiplos sentidos sobre o jogo.    

Serão valorizadas as propostas que levem em conta as experiências concretas dessas manifestações e ou aquelas que contemplem reflexões conceituais originais que estejam relacionadas diretamente a essas experiências de sonorização presente no multiverso do futebol, ou no universo dos futebóis.

Coorganizadores: Dr. Luiz Henrique de Toledo (UFSCar/Brasil); Dr. Tiago de Oliveira Pinto (UNESCO Chair, University of Music Franz Liszt, Weimar/Alemanha)

CHAMADA v. 7, n. 2 (2022): submissão até 15 de dezembro de 2021

2021-07-23

FUTEBÓIS E MODERNISMOS: 100 anos da Semana de 22


Imagem: "Futebol" [fragmento], Djanira, 1948, óleo s/ tela, 96x200cm, coleção: Milton Guper, São Paulo. In: "Universo do futebol" (1982), de Roberto DaMatta.

As relações entre literatura e futebol têm sido tão férteis quanto instáveis na história brasileira. Desde a virada do século XIX e o início do século XX, juntamente com a introdução da prática futebolística no Brasil, o registro artístico-literário dos jogos tem-se dado em jornais e em outros meios, quer sejam manuscritos, impressos, fotográficos ou mesmo pictóricos. Embora a crônica tenha sido o gênero mais destacado quando se refere a essa modalidade esportiva, outras linguagens escritas e visuais também procuraram expressar por meio de imagens e representações as múltiplas vivências e emoções suscitadas pelo futebol, tanto as praticadas quanto as assistidas.

Nessa esteira, é certo que cronistas do porte de Nelson Rodrigues projetaram-se e cristalizaram-se no imaginário nacional pelo modo sublime de narrar os mais diferentes aspectos da experiência futebolística e clubística. Uma mostra da pluralidade de abordagens existentes ao longo do tempo foi reunida por Milton Pedrosa em uma primorosa antologia de final dos anos 1960: Gol de letra – o futebol na literatura brasileira. Desde então escritores contemporâneos tem-se valido da prosa e da poesia para ficcionalizar diferentes personagens, situações e experiências do universo do futebol.  

Em virtude da comemoração da efeméride dos cem anos da Semana de Arte Moderna de 1922, o recorte proposto para o presente dossiê circunscreve o intercruzamento entre o movimento modernista no Brasil e o fenômeno do futebol no país. Esse esporte, no início da década de 1920, já constituía uma modalidade popular, integrada ao discurso da identidade nacional ao menos desde 1919, quando da conquista do III Campeonato Sul-Americano de 1919, comemorada de forma coletiva e entusiástica pela população. Por sua vez, em paralelo, as vanguardas artísticas capitaneadas por Mário de Andrade e Oswald de Andrade, entre muitos outros autores, afirmaram-se no cenário cultural brasileiro, em contraponto às gerações academizantes e beletristas que informavam os padrões dominantes do cânone literário e em sintonia com o que artistas modernos e vanguardistas propunham nos centros de cultura da Europa.

A proposta do número é, pois, mostrar as inter-relações entre as duas áreas da vida coletiva brasileira, a cultural e a esportiva, de modo a mostrar como, ao contrário da suposição que as coloca na condição de esferas distantes e apartadas entre si, os escritores e os artistas da Semana de 1922, junto àqueles surgidos na esteira do modernismo naquele decênio e nos anos 1930 e 1940, lançaram um olhar para a prática futebolística e produziram obras artísticas – crônicas, poemas, contos, pinturas, romances, roteiros de filmes etc. – sensíveis aos significados sociais e estéticos de um jogo polifônico e prenhe de sentidos.

Para este dossiê da FuLiA/UFMG serão bem-vindas contribuições de diversas áreas – Estudos Literários, Estudos da Linguagem, Artes Visuais, Música, Cinema, Moda, Comunicação, História, Antropologia e Sociologia, entre outras – sobre as mais diversas relações entre o futebol e o modernismo. 

Coorganizadores: Dr. Bernardo Buarque de Hollanda (Fundação Getúlio Vargas-CPDOC/Brasil); Dr. Gustavo Cerqueira Guimarães (MRE; Universidade Eduardo Mondlane/Moçambique); Dr. Marcelino Rodrigues da Silva (Universidade Federal de Minas Gerais/Brasil).

CHAMADA v. 7, n. 1 (2022): submissão até 20 de dezembro de 2021

2021-04-22

PARA ALÉM DOS 90 MINUTOS: TEMPOS E TEMPORALIDADES DO FUTEBOL NO MUNDO LUSÓFONO

Imagem: Web (https://images.app.goo.gl/KqXeLCMKAv6SuXg87).

O tema da(s) temporalidade(s) gera uma associação imediata com o tempo clássico do futebol. A duração básica de uma partida de futebol é de 90 minutos, tempo no qual Gunter Gebauer, em seu livro Das Leben in 90 Minuten (A vida em 90 minutos; 2016), se orienta para formular uma “Filosofia do Futebol”, por um lado, para descrever a “imediaticidade” completamente encerrada em si dos frequentadores de estádio e a “pura presença” (Hans-Ulrich Gumbrecht) vivenciada pelos jogadores durante uma partida, e, por outro, lançar luz sobre o efeito e o significado do futebol para além dessa imediaticidade.

Essa forma de temporalidade é, por exemplo, reconhecível fora do estádio, quando se observa as formas da cobertura jornalística, que vão da imediaticidade da transmissão ao vivo na televisão, na Internet e no rádio, passando pelas reportagens posteriores em meios de comunicação audiovisuais e impressos, até representações que se desvinculam do próprio jogo, e como a evolução dessas formas causou transformações no jogo e no seu significado sociocultural. Pode-se pensar também em temporalidades ligadas a representações de corpos, gêneros e sexualidades, como, por exemplo, em relação ao futebol de mulheres no mundo lusófono. 

Culturas do torcer também não se manifestam apenas durante o jogo, mas, sim, se desdobram antes e depois do jogo, nos tempos entre os jogos (que nos faz lembrar da famosa frase atribuída ao lendário treinador alemão Sepp Herberger: “Depois do jogo é antes do jogo”), suas atividades e efeitos. Jogos passados são analisados, jogos que estão por vir são discutidos, coreografias e ações são preparadas, a vida social e o engajamento político são postos em prática.

O ritmo temporal de um ou quatro anos determina não apenas o calendário das competições nacionais e internacionais, mas também estrutura com isso a memória (e o trabalho de memória) dos espectadores, dos torcedores, dos profissionais da mídia e dos pesquisadores. E do olhar para os ”tempos e temporalidade(s)“ do futebol deriva o foco sobre o conflito decisivo em torno do “futebol moderno” no sentido de um modelo social perfeitamente racionalizado e de uma representação idealista de um futebol original e “autêntico”. Os torcedores de “clubes tradicionais” costumam imputar aos chamados “clubes de empresas” a falta de uma história própria e substancial. Sem dúvida, a fascinação do futebol vive muito fortemente da memória e da narrativa dos triunfos, das derrotas e dos acontecimentos especiais do passado. E também no presente, aparentemente, não se situam mundos entre o futebol internacional de ponta e suas dimensões regionais ou locais, mas também tais mundos se sucedem em tempos distintos – e o mundo da língua portuguesa contém essas diversas temporalidades, que manifestam o legado do colonialismo e, ao mesmo tempo, refletem os efeitos da globalização.

A imagem dos “90 minutos” implica, naturalmente, também o olhar para o campo de jogo. Durante uma partida as equipes podem “pressionar o tempo” ou “jogar contra o relógio”, de modo que a dimensão temporal pode mudar fundamentalmente através do transcurso do jogo, podem, de acordo com a perspectiva, reduzir ou ampliar infinitamente os míticos “90 minutos”, e isso até mesmo simultaneamente. Dentro dos 90 minutos do tempo de jogo, o futebol também pode combinar várias camadas temporais, a do puro transcurso do jogo, a da memória de jogos passados, a da experiência individual e coletiva dos espectadores, a da realidade fora do campo e do estádio, o tempo condensado da história que se concretiza na própria partida (por exemplo, em clássicos e duelos tradicionais), ou também na futura memória dessa experiência.

Esses são alguns exemplos de manifestações de temporalidade(s) específica(s) e multifacetada(s) do futebol, cuja análise e interpretação possibilitam um olhar para a dimensão social e cultural do "ludopédio". Portanto, sem essa(s) temporalidade(s) multifacetada(s) do futebol, não seriam possíveis as diversas narrativas do futebol, que tecem sua(s) história(s) a partir de percepções, projeções e memórias do jogo, e às quais desejamos nos dedicar nesta seção.

Para este dossiê da FuLiA/UFMG serão bem-vindas contribuições de diversas áreas – Estudos Literários, Estudos da Linguagem, Artes, Comunicação, História, Educação Física, Antropologia e Sociologia, entre outras – sobre as mais diversas formas de representação de tempos e temporalidade(s) no futebol do mundo lusófono, desde modalidades do torcer, relatos memorialísticos, formas diversas de produção de discursos midiáticos, até transformações do jogo e modos de apreensão temporal de corpos, gêneros e sexualidades. 

Coorganizadores: Dr. Elcio Loureiro Cornelsen (Universidade Federal de Minas Gerais/Brasil); Dr. Marcel Vejmelka (Universidade de Mainz/Alemanha).