Práticas torcedoras transgressoras no templo da virilidade a experiência da Coligay

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Luiza Aguiar dos Anjos
Maurício Rodrigues Pinto

Resumo

Neste artigo analisamos a torcida Coligay, chamando atenção para sua dimensão política transgressora. Formada predominantemente por homens cisgêneros gays, foi criada em 1977, durante o regime militar. Fez história pela afirmação explícita de sexualidade considerada desviante em um universo tratado como reduto de homens cisgêneros e heterossexuais, recorrendo a manifestações torcedoras lidas como afeminadas, extravagantes e debochadas, que destoavam de referenciais viris de masculinidade cobrados e valorizados no futebol. Refletimos sobre as estratégias adotadas e fatores que contribuíram para que a Coligay obtivesse respeito e reconhecimento. Exploramos também sua relação com o cenário e movimentações políticas e culturais homossexuais/LGBT+ e que desafiavam as normas de gênero e sexualidade naquela época, buscando complexificar compreensões sobre a atuação política da torcida, reconhecendo seu potencial transgressor ao ter ampliado espaços de visibilidade pública de sujeitos lidos como dissonantes e contribuído, em alguma medida, para a desconstrução de estereótipos e preconceitos dirigidos a pessoas LGBT+.

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Como Citar
ANJOS, L. A. dos; PINTO, M. R. Práticas torcedoras transgressoras no templo da virilidade: a experiência da Coligay. FuLiA/UFMG , Belo Horizonte/MG, Brasil, v. 8, n. 1, p. 204–226, 2023. DOI: 10.35699/2526-4494.2023.40486. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/fulia/article/view/40486. Acesso em: 19 jun. 2024.
Seção
PARALELAS
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CUNHA, Sérgio Luiz. Depoimento de Sérgio Luiz Cunha (Serginho): Projeto Garimpando Memórias. Porto Alegre: Centro de Memória do Esporte – ESE-FID/UFRGS, 2017.

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