Do mau-olhado ao feed infinito
o erotismo do olhar entre o Talmud e a Psicanálise
DOI:
https://doi.org/10.35699/1982-3053.2025.62318Palavras-chave:
Pulsão Escópica, Ética Talmúdica, AlgoritmosResumo
Na era da visibilidade total, onde o olhar é simultaneamente poder e vulnerabilidade, este artigo investiga as arquiteturas do desejo que governam o ambiente digital. Propõe-se aqui um diálogo inovador entre duas tradições de pensamento sobre o olhar: a psicanálise, que revela a pulsão escópica como força constituinte do sujeito, e o Talmud, que oferece uma complexa ética da responsabilidade visual. O estudo demonstra como as plataformas digitais operam através de uma "agência sem intenção", onde algoritmos exploram o desejo humano de ver e ser visto, gerando um "mau-olhado estrutural" — uma inveja sistémica desprovida de um sujeito malicioso. Através de conceitos como lifnei iver (a proibição de facilitar a transgressão) e tzniut (recato), o artigo não apenas critica os dark patterns e a economia da auto-objetificação, mas também esboça os princípios de um "design pelo recato". A conclusão sustenta que a chave para a agência humana na era digital não reside na supressão do desejo, mas em habitar criativamente a tensão irredutível entre a lei ética e a pulsão inconsciente.
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