Apresentação
DOI:
https://doi.org/10.35699/1982-3053.2025.63658Palavras-chave:
ApresentaçãoResumo
Esta edição da Arquivo Maaravi recebeu artigos para o dossiê “O erótico e o erotismo na cultura judaica”. A importância do corpo e da sexualidade tem, em Israel carnal: lendo o sexo na cultura talmúdica, de Daniel Boyarin, um dos mais importantes estudos laicos sobre o tema, desafiando o pensamento tradicional sobrea relação entre sexo, imoralidade e pecado. Nesse sentido, o problema do mal ligado ao sexo instaura uma série de leituras perniciosas, usadas para controle e exercício de poder. Ao fazer confluir a erudição e a interpretação, com uma abordagem comparatista e aberta ao Outro, o texto religioso – considerado, muitas vezes, misógino, sexista e cheio de tabus, na abordagem do desejo sexual, da procriação, da relação entre homem e mulher–abre-se para leituras menos dogmáticas, mais humanistas e empáticas. Desde a Bíblia, o erótico e o erotismo atravessam histórias e confirmam, em narrativas, poemas e salmos, a importância da percepção do sagrado, e não de sua exclusão, nessa área. Para Georges Bataille, o erotismo não está reduzido a uma dimensão fisiológica ou psicológica, mas a uma experiência existencial e metafísica que revela uma espécie de “sacralidade profana”. Nesse sentido, a noção de “centelha divina” pode ser entendida, dentro desse contexto, como um elemento de transgressão e de contato com algo que ultrapassa os limites do ser individual e finito. A ideia de pecado, sexo e morte, no Jardim do Éden, com Adão e Eva; no incesto e nas estratégias para engravidar do pai das filhas de Lot; no relato da destruição de Sodoma e Gomorra, com os homens de Sodoma desejando “conhecer” os dois belos anjos que ele hospeda, recusando a proposta de Lot, que oferece suas duas filhas virgens, no lugar dos anjos; na história de David e Batseba, bem como a suposta relação homoerótica de David com Yonatan; na construção do amor poético no Cântico dos cânticos; nas Leis, que delineiam o permitido, o não permitido e as transgressões a esses limites, e nos vários episódios de adultério, estupro e outras violências a partir do conteúdo sexual, como no caso de Diná e Tamar, além da mulher anônima, citada em Juízes, que sofre estupro coletivo, eo domínio do desejo e de suas manifestações, algumas vezes contraditórias, é passível de reinterpretação na atualidade. Além dos textos religiosos, a literatura e a cultura judaica expressaram o erótico e o erotismo de formas variadas. Escritores como Isaac Bashevis Singer e Philip Roth exploraram as tensões entre desejo, culpa e tradição em suas obras, refletindo as complexidades da experiência judaica moderna frente à sexualidade. Sigmund Freud construiu, com a psicanálise, um sistema teórico e clínico que associa o sofrimento emocional aos destinos da sexualidade, concebida por ele como um dos polos da constituição do psiquismo. Na literatura brasileira, Moacyr Scliar, nos romances A mulher que escreveu a Bíblia e Manual da paixão solitária, além da coletânea de textos nacionais e internacionais, Os melhores contos bíblicos, de Flávio Moreira da Costa, revelam como o texto bíblico pode vir permeado de humor e ironia. Nesses textos, o erotismo aparece como elemento estruturante da subjetividade dos personagens, além de funcionar como crítica e releitura de tradições religiosas e culturais. Em suma, o erótico e o erotismo na cultura judaica são temas complexos e enraizados na tradição textual e na experiência espiritual. Ao longo da história, sua abordagem oscila entre a celebração como expressão divina e a regulamentação de seus limites éticos e rituais. Diferentemente de algumas tradições religiosas, que demonizaram a sexualidade, o judaísmo, em vários textos e práticas, a entende como uma força positiva, necessária e até sagrada. Além do dossiê, compõe este número artigos de temática livre, poemas, contos, crônicas e uma entrevista, bem como nossa recomendação de livros.
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