Um corpo em construção
literatura e história na obra de Claudia Lage
DOI :
https://doi.org/10.17851/2358-9787.34.4.%25pMots-clés :
O corpo interminável, Claudia Lage, literatura, história, memóriaRésumé
O presente artigo realiza um estudo da obra O corpo interminável (2019), da escritora brasileira contemporânea Claudia Lage. Em um primeiro momento, desenvolve-se uma reflexão acerca das interlocuções entre literatura e história, destacando como a ficção pode oferecer novas perspectivas sobre o passado, e enfatizando que os discursos historiográfico e literário compartilham uma relação dialética, característica que permite a construção de memórias plurais e interpretações distintas. Em seguida, mediante o entendimento de que, na luta contra o processo de esquecimento, a literatura e a história são saberes produtores de memória, complementares e dialogantes, desenvolve-se uma análise da narrativa literária de Lage, a partir da consideração de elementos históricos relacionados à ditadura cívico-militar no Brasil, como a tortura e o desaparecimento de pessoas por questões políticas. O enfoque analítico centra-se no personagem Daniel, filho de uma guerrilheira desaparecida, que busca reconstruir a história de sua mãe a partir de fragmentos, documentos, relatos e de um livro que encontra com anotações dela. No que concerne ao referencial teórico-crítico utilizado na elaboração do texto, destacam-se as contribuições de Michel Foucault (1992), Florentina da Silva Souza (2015), Ana Maria Colling (2013), Hayden White (1994), Jeanne Marie Gagnebin (2009), Jaime Ginzburg (2010), Márcio Seligmann-Silva (2022) e Lilia Schwarcz (2019), entre outras
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