A edição do segundo semestre de 2014 da revista Outra Margem está disponível para visualização e download em PDF.
Em entrevista exclusiva concedida por e-mail para a Outramargem, revista de filosofia, em julho de 2014, Paulo Margutti revela que passou boa parte de sua vida dedicado a um modelo de atividade filosófica no qual não mais acredita; contesta a autoimagem negativa da comunidade filosófica brasileira, que tem raízes na aplicação de critérios europeus etnocêntricos na avaliação da maneira pela qual fazemos filosofia nesse país; defende que a filosofia brasileira tem de ser buscada em nossa própria história cultural, com todas as suas especificidades e peculiaridades, sem ser avaliada com base nos critérios europeus ocidentais; e, apesar de tudo o que já foi percorrido, ele confirma que os projetos não param. Confira a entrevista.
O objetivo do artigo é examinar o sentido da conhecida tese arendtiana de que na modernidade “o fio da tradição teria se rompido”, desejando esclarecer que tal ruptura não pode ser devidamente compreendida sem sua contrapartida que é a “rememoração do passado”.
Neste texto discutimos o personagem conceitual do “espírito livre”, a que Nietzsche dedicou seu segundo livro publicado. Endereçamos a afirmação nietzschiana de que a liberdade de espírito configura um tipo de liberdade “relativa”. Valemo-nos do conceito de “autosseleção”, desenvolvido por John Richardson, para interpretar a ética do cuidado de si avançada por Nietzsche no contexto da filosofia do espírito livre. Abordamos o papel da ciência na construção de uma dietética espiritual e intelectual característica do modo de vida espírito livre, e o papel desse personagem no interior do programa filosófico de Humano, demasiado humano.
A filosofia do jovem Schelling é marcada pela tentativa de repensar, de maneira original, algumas ideias elaboradas pela tradição filosófica. O filósofo de Leonberg reinterpreta a Tathandlung (ato) de Fichte, a natura naturans de Spinoza (natureza como dotada de auto-produtividade), a liberdade transcendental de Kant. O foco em nosso trabalho é articular liberdade e ideia, buscando apontar como Schelling ora se apropria de Kant, ora o critica, na tentativa de desenvolver um criticismo que não caia nas aporias da filosofia crítica tal como elaborada por Kant. Serão consultados textos do período breve, porém fecundo, entre 1795-96. Além disso, suporte será buscado em Kant e em intérpretes de Schelling.
O objetivo deste texto é ponderar acerca da constituição do kósmos no Timeu e dos elementos que permitem pensar a constituição do humano; a partir daí conceber quais partes configuram a composição da aísthesis, que é o meio que permite ao humano aperceber-se das coisas, sendo ele mesmo resultante das relações que compõem a totalidade. No entanto, não discutiremos a aísthesis no seu aspecto global, mas somente no seu aspecto afectivo. Em outras palavras, buscamos compreender como se pode relacionar o sensível ao inteligível na constituição do aspecto físico da aísthesis.
Nuevos proyectos de investigación sobre la guerra y la conflictualidad internacional tratan de reexaminar la violencia desde el ángulo de “la lucha por el reconocimiento” del filósofo y sociólogo alemán Axel Honneth. En este artículo se buscará, en primer lugar, presentar los aspectos generales de dicha teoría y, en segundo lugar, desarrollar algunos de los elementos que se deben tener en cuenta a la hora de aplicarla al análisis de los conflictos armados.
Partindo da ideia de que muitos dos preceitos da estética kantiana podem ser vistos como um importante instrumento de análise da produção cultural contemporânea, destacamos os aspectos críticos e reflexivos do juízo de gosto kantiano a fim de distingui-lo, tal como Kant procede em sua 3ª crítica, dos juízos determinantes. Estes juízos, ligados principalmente à atividade do conhecimento, são marcados, dentro da estrutura transcendental kantiana, pela necessidade e objetividade de suas asserções, na medida em que se referem justamente àquilo que é necessariamente fornecido pelo sujeito transcendental na constituição da experiência. Porém, a própria análise kantiana das estruturas transcendentais que constituem a experiência de conhecimento encontra limites, e este é o caso da doutrina do esquematismo. É justamente aí onde aparece a crítica empreendida pelos pensadores de Frankfurt. Encontramos em vários textos de Adorno, Benjamin e Horkheimer a ideia de que os modos próprios com que o sujeito constitui a sua experiência são, eles mesmos, condicionados por instâncias que escapam ao sujeito. O cinema, entendido como mero produto industrial, aparece nestes autores como uma destas instâncias. Acreditamos, porém, que o modo próprio com que a atividade de esquematizar atua no juízo de gosto kantiano pode apontar para outras possibilidades.
A reflexão presente no texto aborda a contextualização de uma importante obra de um dos principais filósofos iluministas da França: Jean-Jacques Rousseau e seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1754). Buscou-se estabelecer uma relação entre obra, autor e o pensamento que vigorava à época do Iluminismo, compreendendo a publicação do livro naquele momento e quais são os possíveis reflexos dela na contemporaneidade.
This article examines Paul Ricoeur’s ideas of otherness and desire. Both play a significant role in Ricoeur’s philosophy in general, and in his hermeneutics of the self in Oneself as Another in particular. The thesis I defend in this article is that desire for otherness is nevertheless a blind spot in Ricoeur’s hermeneutics of the self. In order to defend this thesis I will examine Ricoeur’s triadic understanding of the other in the final chapter of Oneself as Another and in his essay “Multiple Étrangeté.” I will argue that in his triadic understanding of otherness, Ricoeur clearly describes three different experiences of the other affecting the capable self in talking, acting, narrating and being responsible, i.e., the experience of the world affecting the flesh, the experience of compassion for other people in relations of solicitude, and the experience of the other that is the inner voice of conscience. I will further argue that Ricoeur’s understanding of otherness nevertheless insufficiently describes the experience of desire for otherness in the particular sense of the self’s attraction to otherness, which is different from these three experiences and which is nevertheless a significant experience for understanding the self’s capacity to talk, act, narrate and take responsibility.
O objetivo é situar o lugar da ética no interior da dicotomia Indivíduo - multidão. A ideia central implicará em propor uma leitura alternativa para o embate entre duas tradições interpretativas da temática em Kierkegaard. Isto é, 1) tanto para aqueles que advogam uma conciliação entre o filósofo de Copenhague com os idealistas Kant e Hegel (que são pensadores que transitam na obra kierkegaardiana), 2) como para os que propõem uma divergência profunda entre Kierkegaard e qualquer tipo de compromisso ético. Em contraposição a ambos os vetores interpretativos na literatura kierkegaardiana, pretendemos mostrar que a ética, para o filósofo dinamarquês, ocupa um lugar necessário, mas insuficiente no que diz respeito à transição do Indivíduo massificado, vale dizer aquém da ética, para o Indivíduo singular, além da ética. Para sustentar tal argumento é imprescindível remeter a discussão kierkegaardiana sobre os estádios, o que constitui o alicerce pelo qual perpassa o fio condutor desta reflexão.
O objetivo deste artigo é analisar o pensamento de Michel Foucault acerca das noções de autor e de obra, pensadas como funções variáveis e complexas do discurso. A primeira parte do artigo pretende conectar a figura do autor com o problema do sujeito e com a ordem do discurso. Na segunda parte, o objetivo é indicar como essa problemática aparece em outros textos de Foucault, em momentos nos quais ele analisa os modos de circulação e apropriação dos discursos, tanto na Antiguidade quanto em seu presente (com relação às suas próprias “obras”).