Nicolas de Malebranche (1638-1715) procurou aperfeiçoar o sistema inicialmente proposto por René Descartes (1596-1650), apesar de aceitar as suas premissas em epistemologia e metafísica. Para tanto, Malebranche propõe-se a continuar a edificação de um sistema de verdades sobre o conhecimento e a constituição ontológica do que é conhecido. Para ambos, o que está para além dos objetos conhecidos (assim como do sujeito que conhece) encontra-se absolutamente livre de dúvida. Malebranche reconheceu que o critério cartesiano de verdade e justificação da clareza e distinção (base do sistema cartesiano) exige uma cláusula, a saber, a de que o nada não tem propriedades. Mas esta cláusula exige como condição de verdade ou validade que as ideias tenham um caráter divino, isto é, que façam parte da mente de Deus. O ocasionalismo constitui ainda outro ponto que contribui para a exacerbação do
caráter teológico do sistema de Descartes elaborada por Malebranche. O meu objetivo é descrever estas modificações, para mostrar como o edifício epistemológico exigido por Descartes se pôde tornar (pelo menos, pretensamente) mais imune à dúvida, por meio
dessa teologização. Para esse fim, comentarei algumas passagens d’A busca da verdade e das Meditações cristãs e metafísicas, de Malebranche, e das Meditações Metafísicas, de Descartes.