Chamada de Trabalhos para o Volume 11, Número 2, do ano de 2026

08-07-2026

Com o intuito de incentivar a produção acadêmica no âmbito das Ciências do Estado, a Equipe Editorial da Revista de Ciências do Estado (REVICE) torna pública a presente chamada, referente à composição do dossiê do volume 11, número 2, ano 2026. O tema do dossiê desta edição é “Dos Brasis que se faz o Brasil: Intérpretes e interpretações - Projetos de nação e de Estado”.

O que é o Brasil? Essa é uma pergunta que movimenta o pensamento dos intelectuais das mais diversas áreas de conhecimento há mais de um século. De Euclides da Cunha a Milton Santos, de Gilberto Freyre a Lélia Gonzalez, de Florestan Fernandes a Ailton Krenak, de Darcy Ribeiro a Celso Furtado, interpretações foram formuladas, debatidas e confrontadas, revelando a complexidade e inesgotabilidade de nosso país. Mais do que não esgotar, todas interpretações abrem para uma possibilidade de Brasil, revelando que, sob um mesmo território e uma mesma ordem política, coexistem múltiplos Brasis.

Cada interpretação do Brasil é, também, uma interpretação de seu Estado, de suas instituições e de seu processo histórico. Ao buscar entender as raízes das estruturas de poder, das desigualdades sociais, dos projetos de desenvolvimento ou os sentidos da democracia, os intérpretes do Brasil não apenas descreveram o país, mas formularam diferentes diagnósticos e projetos de nação. Portanto, pensar o Brasil sempre significou discutir suas vicissitudes, seus horizontes, seus territórios e seus diferentes significados.

Este número chega em uma época especial para a Revista de Ciências do Estado. Comemoramos 10 anos e temos um mar de influências para a escolha deste tema do dossiê. A primeira delas vem dos Cadernos do Povo Brasileiro, publicados entre 1962 e 1964, cujo objetivo acadêmico e político era mobilizar e conscientizar a população sobre a realidade brasileira em função das, compreendidas como necessárias, reformas de base do governo Jango. Esse esforço conjunto do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), a Editora Civilização Brasileira e o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi abruptamente interrompido pela censura da Ditadura Militar. Apesar disso, fica o chamado de que interpretação e projeção; conhecimento e transformação caminham juntos.

Além disso, temos algumas efemérides que insuflam o nosso ímpeto por compreensão e transformação. Data-se o centenário de nascimento de Milton Santos. Intelectual incontornável para compreender o Brasil e seu lugar no mundo e, diante de uma globalização desumanizante e uma realidade histórica preenchida por fissuras, a sempre atual luta por uma cidadania plena e engajada. Afinal, a realidade é imperfeição e possibilidade.

Neste encalço, temos também excelentes trabalhos que orientam nosso esforço. Duas teses, que marcam em diferentes momentos históricos o surgimento do curso de Ciências do Estado, têm no aniversário de 10 anos da REVICE uma convergência curiosa: (i) há 30 anos, Joaquim Carlos Salgado publicava A Idéia de Justiça em Hegel. Fruto de sua Tese de Cátedra, a seminal obra do professor Salgado alicerçava com profundidade inigualável ideias de liberdade, ética e política articuladas em sentido de um projeto de Estado. (ii) Há uma década, exatamente com o nascimento da REVICE, o Professor Philippe Oliveira de Almeida defendia sua tese Crítica da razão antiutópica: Inovação institucional na aurora do Estado moderno e, com isso, acrescia ao movimento das Ciências do Estado um capítulo crucial para sua história. Para o professor Philippe, o Estado e o Direito devem ser compreendidos não como monumentos estáticos, mas como processos de descoberta e aprendizagem coletivas, desafiando a tendência de naturalizar o status quo ou idealizar as normas vigentes como destinos inelutáveis. Reconectando-se com os momentos e figuras importantes da sua história, a REVICE quer, com este dossiê, a um só tempo, celebrar os 30 anos da publicação da Idéia de Justiça em Hegel e os 10 anos da defesa da Crítica da Razão Antiutópica, e lançar-se com força ao futuro, convidando a comunidade acadêmica a pensar o Brasil. Este dossiê, portanto, busca intérpretes que, munidos de um espírito experimentalista, ousem escavar as contradições da tradição para projetar instituições alternativas que reflitam, de fato, a potência e a justiça latentes nos diversos Brasis que formam o Brasil.

O presente dossiê busca, ainda, refletir e demonstrar o caráter pedagógico e interdisciplinar do Bacharelado em Ciências do Estado. Em sintonia com as exigências de seu próprio objeto — o Estado —, a proposta acadêmica do curso sempre foi voltada a uma formação crítica e radicalmente interdisciplinar, ampliando os restritos horizontes disciplinares em direção à totalidade das áreas do saber. Desde seu primeiro volume (Ciências do Estado: Trajetórias e Perspectiva), em 2016, a REVICE vem ocupando papel essencial na construção do curso e na formação de profissionais acadêmicos qualificados, rompendo com a hiper-especialização e trazendo luz ao horizonte de pesquisa. Os diversos volumes, lançados ao longo destes 10 anos, refletem esse papel e exploram o caráter das Ciências do Estado, desde sua formação até as recentes expansões.

É nesse contexto que a Revista de Ciências do Estado propõe o dossiê “Dos Brasis que se faz o Brasil: Intérpretes, interpretações e projetos de nação e de Estado”. A proposta pretende reunir pesquisas que revisitem os diferentes modos pelos quais o Brasil foi pensado ao longo de sua história, assim como os impactos dessas interpretações na construção do pensamento político-jurídico, econômico, social e institucional brasileiro. Mais do que um conglomerado de pensamentos de autores consagrados, busca-se incentivar reflexões críticas sobre os diversos projetos de país que emergem das diferentes leituras e de sua permanência e/ou ressignificação defronte aos desafios contemporâneos.

Diante disso, perguntamos: O que é o Brasil? Quais são os “Brasis” que emergem das diferentes tradições e conflitos dos autores do pensamento político e social brasileiro, tanto clássicos quanto modernos? Como os intérpretes do Brasil contribuíram para a construção de projetos de Estado e de nação ao longo da história? De que forma as interpretações clássicas do Brasil permanecem influenciando os debates contemporâneos sobre democracia, cidadania e desenvolvimento? Quais são as múltiplas identidades que se constroem no Brasil e como elas, por outro lado, também constroem o Brasil? Ou, ainda, quais foram as identidades que se tinham em mente em cada capítulo de nossa história? Quais sujeitos, territórios e experiências foram historicamente invisibilizados nas grandes narrativas sobre a formação nacional? Como as interpretações produzidas por intelectuais marginalizados desafiam os cânones do pensamento brasileiro? Como as diferentes interpretações do Brasil influenciaram a construção das instituições estatais brasileiras? Como as transformações recentes da democracia brasileira desafiam as interpretações clássicas sobre o Estado brasileiro? Os diferentes territórios brasileiros produzem formas distintas de pertencimento político e cidadania? De que forma as experiências indígenas, quilombolas e periféricas reconfiguram a compreensão do Estado brasileiro? Como os conflitos territoriais contemporâneos desafiam os modelos tradicionais de configuração do Estado? De que maneira interpretar e sonhar o Brasil?

Este número engloba, portanto, trabalhos sobre: Estado brasileiro; Democracia brasileira; Território brasileiro; Desenvolvimento tecnológico; Desenvolvimento sustentável; Desigualdades; Identidades; Brasilidade; Intérpretes do Brasil; Pensamento político brasileiro; História Intelectual Brasileira; Formação do Estado brasileiro; Estado e sociedade; Nação e nacionalidade; Racismos; Sexismos; Projeto nacional; Identidade nacional; Democracia e cidadania; Federalismo; Modernização; Autoritarismo; Estudos Culturais; Cultura política; Instituições políticas; Elites; Poder; Participação; Regionalismos; Contemporaneidade; Brasil Colônia; Brasil Império; Ditadura Militar; Era Vargas; Pensamento social brasileiro; Ensaísmo brasileiro; Imaginação nacional; Imaginação institucional; Formação social brasileira; Colonialidade; Teoria da dependência; Modernização periférica; Nacional-desenvolvimentismo; Globalização; Cidadania; Urbanização; Nacionalismo; Pensamento crítico brasileiro; Decolonialidade; Soberania nacional; Sincretismo cultural.

 

I - A publicação da REVICE dar-se-á em fluxo contínuo.

II – A REVICE receberá trabalhos para o presente do dossiê a partir da data de sua publicação até 14 de setembro de 2026.

III - Os trabalhos cujo processo de avaliação e correção não se encerrarem até 31 de dezembro de 2026 serão publicados nos números seguintes da REVICE.

IV - Todas as políticas de submissão da REVICE, bem como suas políticas editoriais, se encontram em seu site oficial.

V – Serão aceitos apenas artigos, ensaios, resenhas, traduções inéditas e memórias históricas.

VI – Os trabalhos de temática livre continuam a ser aceitos pela REVICE.

 

Belo Horizonte, 08 de julho de 2026

 

Bruno de Oliveira Santos
Editor-Chefe da Revista de Ciências do Estado

 

Theo Augusto Apolinário Moreira Fonseca
Editor-Chefe Adjunto da Revista de Ciências do Estado