A ditadura empresarial-militar e a Reforma Universitária de 1968

repressão, cooptação e formação para o mercado

Autores

DOI:

https://doi.org/10.35699/2237-5864.2024.52843

Palavras-chave:

ditadura empresarial-militar, educação, reforma universitária, repressão, cooptação

Resumo

Este ensaio aborda o contexto que fez emergir a Reforma Universitária promovida pela Lei no 5.540/68, efetivada por meio da repressão, cooptação e formação para o mercado. O texto é fundamentado em fontes documentais, artigos acadêmicos e livros que tratam da temática, por isso, é de natureza bibliográfica e documental. Partimos do princípio de que a reforma implementada pela ditadura empresarial-militar foi concebida a partir dos interesses empresariais, em consonância com o capital norte-americano e se materializou em acordos de cooperação financeira e assistência técnica à educação brasileira, como os celebrados no âmbito MEC-USAID. O objetivo central é refletir sobre as ligações entre a ditadura, os interesses empresariais e a Reforma Universitária de 1968, discorrendo as articulações nas universidades, que cooptaram, estrategicamente, a participação de reitores, diretores e outros civis, os quais contribuíram para a lógica do mercado empresarial. Nesse sentido, argumentamos que o projeto educacional dos governos militares foi legitimado em nome da eficiência técnica, do desenvolvimento econômico e da modernização das relações capitalistas. Não se tratou, portanto, de um fenômeno isolado, mas de um projeto inerente ao desenvolvimento associado e dependente de nossa economia. Assim, a defesa da igualdade de oportunidades e a ampliação de vagas não passaram de um instrumento que reforçou a hegemonia do capital sobre a classe trabalhadora. Por fim, a Reforma do Ensino Superior foi marcada pelo discurso tecnocrático, que conciliava as universidades e o capital, ambos voltados para a formação do mercado.

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Biografia do Autor

  • Marco Antônio de Oliveira Gomes, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR, Brasil.

    Doutor em História e Filosofia da Educação pela Universidade de Campinas (Unicamp). Professor do Departamento de Fundamentos da Educação, na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor do Programa de Pós-graduação em Educação da UEM. Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisas em Fundamentos Históricos da Educação (GEPFHE).

  • Italo Ariel Zanelato, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR, Brasil.

    Doutorando em Educação no Programa de Pós-Graduação (PPE) na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor no Departamento de Teoria e Prática da Educação (DTP), Universidade Estadual de Maringá (UEM). Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisas em Fundamentos Históricos da Educação (GEPFHE) e do Grupo de Estudos e Pesquisas História da Educação, Intelectuais e Instituições Escolares (GEPHEIINSE) – GT Histedbr Maringá.

  • Alessandro Santos da Rocha, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR, Brasil.

    Doutor em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor do Departamento de Fundamentos da Educação, na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor do Programa de Pós-graduação em Educação da UEM. Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisas em Fundamentos Históricos da Educação (GEPFHE).

     

  • Maria Cristina Gomes Machado, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR, Brasil.

    Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professora do Departamento de Fundamentos da Educação na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professora do Programa de Pós-graduação em Educação da UEM. Pesquisadora no Grupo de Estudos e Pesquisas História da Educação, Intelectuais e Instituições Escolares (GEPHEIINSE) – GT Histedbr Maringá. Bolsista Produtividade CNPq 1B.

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SEÇÃO ESPECIAL “DEMOCRACIA E ENSINO NA UNIVERSIDADE: 60 ANOS APÓS O GOLPE DE 1964”

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Publicado

31-12-2024

Edição

Seção

Seção especial: Democracia e ensino na Universidade: 60 anos após o golpe de 1964

Como Citar

GOMES, Marco Antônio de Oliveira; ZANELATO, Italo Ariel; ROCHA, Alessandro Santos da; MACHADO, Maria Cristina Gomes. A ditadura empresarial-militar e a Reforma Universitária de 1968: repressão, cooptação e formação para o mercado. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 14, p. 1–24, 2024. DOI: 10.35699/2237-5864.2024.52843. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/rdes/article/view/52843. Acesso em: 15 jan. 2026.