Bastiões da Moralidade: saberes médicos da classe "psiquiátrica" do século XIX

Autores

  • Letícia Santos Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Palavras-chave:

Sexualidade, Medicina Moral, Prostituição

Resumo

Este artigo investiga o papel da Medicina Moral e da psiquiatria no Brasil do século XIX como instrumentos de controle social e disciplinarização da moralidade, com foco na cidade de Fortaleza após a Grande Seca de 1877. A partir da análise das “Cartas Sobre a Loucura”, do médico Francisco Montezuma, e das práticas do Asilo São Vicente de Paula, demonstra-se como mulheres — especialmente prostitutas — foram patologizadas e internadas sob a justificativa de loucura. O estudo articula os discursos médicos com teorias como a de Michel Foucault e a crítica de gênero, evidenciando como a psiquiatria serviu à repressão de comportamentos femininos considerados desviantes. Argumenta-se que o asilo não operava como espaço terapêutico, mas como dispositivo de exclusão social e moral, refletindo os interesses de uma sociedade patriarcal e higienista que associava pobreza, sexualidade e loucura à degeneração feminina.

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Publicado

11-03-2026

Edição

Seção

Dossiê Temático - Saberes em Movimento: Ciência, Cultura e Sociedade

Como Citar

SANTOS, Letícia. Bastiões da Moralidade: saberes médicos da classe "psiquiátrica" do século XIX. Temporalidades, Belo Horizonte, v. 17, n. 2, p. 213–235, 2026. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/temporalidades/article/view/61002. Acesso em: 13 mar. 2026.