Ofuscamento de Virgínia Bicudo e a intelectual negra como índice crítico do racismo e do sexismo na Psicologia
Palabras clave:
epistemicídio, ofuscamento, Virgínia BicudoResumen
Este estudo de caso de cunho etnográfico descreve e analisa o processo de recuperação de Virgínia Bicudo na Psicologia brasileira. Com base nas contribuições do interacionismo simbólico, propõe-se aqui uma análise acerca do tipo de menção a Virgínia Bicudo, relacionando-a à Psicologia. A maior parte não considera seus textos autorais e seu nome aparece em alusões, como pseudônimos, agradecimentos ou notas de rodapé. Pode-se dizer, portanto, que não há uma recepção crítica de sua obra. A maneira como a autora aparece a afasta do campo, obscurecendo a recepção de sua obra, por meio do processo de ofuscamento. Propomos que as posicionalidades paradoxais das mulheres negras sejam analisadas como índice crítico do racismo e sexismo epistêmicos. Como conclusão, indica-se que, para combater os efeitos do racismo epistêmico e, consequentemente, o pleno reconhecimento da autoria, são necessárias, dentre outras iniciativas, políticas de citação que considerem, em rigor teórico, a obra, isto é, sua recepção crítica no campo institucionalizado do conhecimento.
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