Etiópia ou as Índias do Preste João? A mudança da perspectiva portuguesa na primeira modernidade
Palavras-chave:
Etiópia, Preste João, JesuítasResumo
Este artigo analisa a transformação da percepção portuguesa sobre a Etiópia entre os séculos XVI e XVII, partindo do imaginário das Índias do Preste João em direção a uma compreensão mais empírica do território e de seus habitantes. O estudo compara duas fontes fundamentais: Ho Preste João das Índias: Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, 1540, do padre Francisco Álvares, representando uma fase mais diplomática da presença portuguesa, e História Geral da Etiópia a Alta, 1660, do padre jesuíta Manuel D’Almeida, editada por Baltazar Telles, correspondente à fase missionária. Mediante a metodologia da Análise de Conteúdo de Lawrence Bardin e a abordagem contextual de Quentin Skinner, investiga-se como as narrativas idealizadas sobre o Preste João foram gradualmente substituídas por descrições que aproximavam a Etiópia de categorias interpretativas mais familiares aos portugueses, notadamente revelando a crise criada pelas noções de heresia e cisma entre o clero cristão da terra e os inacianos.
Downloads
Referências
AGNOLIN, Adone. Jesuítas e Selvagens: A negociação da fé no encontro catequético-ritual americano-tupi. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), 2022.
AKPAN, Monday. Libéria e Etiópia, 1880-1914: a sobrevivência de dois estados africanos. In: BOAHEN, Albert Adu (Org.). História Geral da Africa. 2a ed. Brasília: UNESCO, 2010. v. VII.
ALDEN, Dauril. The Society of Jesus in Portugal, Its Empire, and Beyond. California: Stanford University Press, 1996.
ALMEIDA, André. Da Demanda do Preste João à Missão Jesuíta da Etiópia. Lusitania Sacra, n. 2, p. 247–294, 1999.
ALVARES, Francisco. Oh Preste Johan das Indias: A verdadeira informação das terras de Preste Johan. Lisboa: Imprensa de Luis Rodrigues, 1540.
BANHA DE ANDRADE, Antônio Alberto. Francisco Álvares e o êxito europeu da verdadeira informação sobre a etiópia. Lisboa: Junta de investigações científicas do ultramar, 1982.
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.
BARROS, João de. Livro IV. In: Decada Terceira da Asia. Lisboa: Imprensa de Jorge Rodrigues, 1628.
BARROS, José D’Assunção. Heresias: considerações sobre a história de um conceito e sobre as discussões historiográficas em torno das heresias medievais. Fronteiras, v. 12, n. 21, p. 33–49, jun. 2010.
BETHENCOURT, Francisco. Racismos: Das cruzadas ao século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
BOXER, Charles. O Império Colonial Português (1415-1825). Lisboa: Edições 70, 1969.
CARAMAN, P. Etiópia (Charles O’NIEILL, Joaquín DOMINGUEZ, Orgs.)Dicionário Histórico da Companhia de Jesus: Biográfico Temático. Madrid: Universidade Pontificia Comillas, 2001.
CORPO DIPLOMÁTICO PORTUGUEZ. Os actos e relações políticas e diplomáticas de Portugal: com as diversas potências do mundo desde o século XVI até os nossos dias Tomo II. Lisboa: Typografhia da academia Real das Sciencias, 1865.
CRUZ, Alfredo. Encontros modernos, feridas antigas. Fenix- Revista de História e Estudos Sociais, v. 15, n. 1, jun. 2018.
D’ALÒS-MONER, Andreu Martínez. The Jesuit Patriarchate to the Preste: Between Religious Reform, Political Expansion and Colonial Adventure. Journal of Ethiopian studies, 2013.
DISNEY, Anthony. A expansão portuguesa, 1400-1800. Contatos, negociações e interações. In: BETHENCOURT, Francisco; CURTO, Diogo (Orgs.). A Expansão Marítima Portuguesa, 1400-1800. Lisboa: Edições 70, 2010.
GODINHO, Vitorino. Os descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Presença, 1985. v. 1
HARTOG, François. O Espelho de Heródoto. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
HESPANHA, Antônio Manuel. Filhos da Terra: Identidades mestiças nos confins da expansão portuguesa. Lisboa: Tintas da China, 2019.
HOLANDA, Sérgio Buarque. Visão do Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
MANSO, Maria de Deus Beites. Facilitating an Empire: The Jesuits in Portuguese Territories and Beyond (1540-1975). Lisboa: Palgrave Macmillan, 2025.
MOURA, Anderson Cordeiro. Heresia e ortodoxia: uma análise teórica no contexto da inquisição. Último andar, 2018.
MUDIMBE, Valentim. A ideia de África. Mangualde: Edições Pedago, 2013.
NEPOMUCENO, Luís. Miguel de Castanhoso e o Martírio de D. Cristóvão da Gama. ALEA, v. 24/2, p. 295–312, ago. 2022.
RAMOS, Manuel. O Destino Etíope do Preste João: A Etiópia nas Representações Cosmográficas europeias. Lisboa: Cosmos, 1999.
RODRIGUES, M. R. O Monofisismo no Reinado de Justiniano. Revista de História, v. 27, n. 55, p. 61–99, 1963.
RUSSEL-WOOD, A. S. R. Um mundo em movimento: os portugueses na África, Ásia e América. Lisboa: DIFEL, 1998.
SÁ, Isabel dos Guimarães. Estruturas Eclesiásticas e Ação Religiosa. In: BETHENCOURT, Francisco; CURTO, Diogo (Orgs.). A Expansão Marítima Portuguesa, 1400-1800. Lisboa: Edições 70, 2010.
SILVA, Aberto da Costa e. A enxada e a Lança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
SKINNER, Quentin. Visão da Política: sobre os métodos históricos. Algés: DIFEL, 2005.
SOUZA, Luis Costa. Campanha da Etiópia: 400 portugueses em socorro do Preste João. Lisboa: Tribuna da História, 2008.
TAMRAT, Tadesse. O Chifre da África: os Salomônidas na Etiópia e os Estados do Chifre da África. In: NIANI, Djibril (Ed.). História Geral da África I. Brasília: UNESCO, 2010.
TELLEZ, Balthazar; ALMEIDA, Manoel. História geral de Ethiopia a Alta: Ou Preste Joam, e do que nella obraram os padres da companhia de Jesus composta na mesma Ethiopia. Coimbra: Oficina Manuel Dias, 1660.
THOMAZ, Luís Filipe. De Ceuta a Timor. Lisboa: DIFEL, 1998.
THORNTON, John. A África e os Africanos: Na formação do Mundo Atlântico. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
THORNTON, John. Os portugueses em África. In: BETHENCOURT, Francisco; CURTO, Diogo (Orgs.). A Expansão Marítima Portuguesa, 1400-1800. Lisboa: Edições 70, 2010.
WICKI, Josef. Documenta Indica. Roma: Tipografia Pio X, 1948. v. 2
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Wallace Machado

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
O(A) autor(a), para fins de submissão à revista Temporalidades, deve declarar que o trabalho aqui submetido é de autoria do mesmo e nunca foi publicado em qualquer meio, seja ele impresso ou digital.
O(A) autor(a) também declara estar ciente das seguintes questões:
Os direitos autorais para artigos publicados na Temporalidades são do autor, com direitos de primeira publicação para o periódico;
Em virtude de aparecerem nesta revista de acesso público, os artigos são de uso gratuito;
A revista permitirá o uso dos trabalhos publicados para fins não-comerciais, incluindo direito de enviar o trabalho para bases de dados de acesso público.
A Temporalidades adota a licença internacional Creative Commons 4.0 (CC BY).








