Seguindo a indicação nietzschiana de que a metafísica opera no sentido
moral de desnaturalização e espiritualização das paixões, lançando-as ao reino do mal a
ser universalmente combatido pelas instituições formadoras dos valores comuns e
controladoras do ser e do agir – religião, ciência, filosofia –, tratarei de abordar aqui o
desmascaramento da metafísica produzido pela tematização das paixões emAssim falou
Zaratustra. Para tanto, tomo como base, sobretudo, o discurso “Das paixões alegres e
dolorosas”, ao qual outros também vêm se juntar. Pensando negar as paixões em favor
do conhecimento conceitual-representativo – referido à racionalidade, à consciência –,
os metafísicos empreendem uma divinização moral a verdade, impedindo-se, assim, a
investigação acerca do valor da verdade, isto é, dos elementos que, para além do que
poderia ser a natureza da verdade, fundamentam a relação que eles próprios, enquanto
criadores de suas filosofias, têm com a verdade. A perseguição às paixões é a paixão
diretora dos metafísicos. Sintoma de uma pulsão dominante, provém ela de ordens
apaixonadas. Contrária à tradição dualista – racionalista e subjetivista – a filosofia de
Nietzsche equipara vida e paixão, identificando na dimensão afetiva o motor da
atividade humana, incluindo-se aí o pensamento e suas produções interpretativas, entre
elas, a moral.