O uso da inteligência artificial no ensino superior e o aprofundamento da empresarização da educação
DOI:
https://doi.org/10.35699/2237-5864.2025.58868Palavras-chave:
inteligência artificial, ensino superior, capitalismo de plataforma, educação a distância, regulaçãoResumo
Este artigo analisa os impactos da inteligência artificial generativa no ensino superior, articulando esse fenômeno ao avanço do capitalismo de plataforma e à intensificação dos processos de empresarização e financeirização da educação. A partir da emergência de modelos de inteligência artificial, observa-se uma crescente automatização de tarefas pedagógicas mediadas por algoritmos, especialmente em cursos a distância, favorecendo a redução de custos operacionais e a substituição da mediação docente por plataformas digitais. Tais transformações ocorrem em um contexto de hegemonia neoliberal, no qual a racionalidade de mercado reconfigura as instituições educacionais com base em métricas de desempenho, competitividade e retorno financeiro. O crescimento exponencial da modalidade a distância e a concentração do setor educacional em grandes grupos privados evidenciam a fragilização das pequenas instituições e o risco de precarização do trabalho docente. Discute-se, ainda, o conceito de “aprisionamento tecnológico” para denunciar a dependência estrutural de soluções técnicas promovidas por corporações, que obscurecem alternativas éticas e pedagógicas. Frente a esse cenário, o artigo defende a necessidade de políticas públicas regulatórias robustas, baseadas em princípios de justiça social, centralidade humana, transparência e diversidade epistemológica. Conclui-se que a adoção de tecnologias educacionais não pode prescindir de um debate crítico, amplo e democrático, comprometido com a emancipação dos sujeitos e a preservação dos valores humanistas da educação.
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