A panela e o voo interrompido

fome, colonialidade e produção da subcidadania nas margens do Estado brasileiro

Autores

DOI:

https://doi.org/10.35699/2525-8036.2026.63896

Palavras-chave:

América Latina, Subcidadania, Decolonialidade, Necropolítica, Educação Matemática

Resumo

Este ensaio crítico-narrativo analisa a memória autobiográfica da fome como categoria epistemológica, política e pedagógica para problematizar a produção da subcidadania nas margens do Estado brasileiro. Parte-se do episódio do consumo de um gavião em contexto de extrema vulnerabilidade alimentar no interior do Espírito Santo, posteriormente ressignificado na trajetória do autor como professor de Matemática na Amazônia rondoniense. A narrativa “O gavião e a carne do mundo”, de autoria própria, é tomada como corpus central do ensaio e não como ilustração intimista ou ornamento literário. Metodologicamente, o texto articula escrita autobiográfica, ensaio crítico e análise teórica, em diálogo com Adorno, Santos, Castro, Quijano, Fanon, Mbembe, Bourdieu, Freire, Galeano e Skovsmose. Sustenta-se que a fome não constitui déficit individual, falha moral da família pobre ou traço cultural de territórios periféricos, mas expressão histórica de uma ordem social que administra desigualmente o acesso à vida digna. A cena da panela, do gavião abatido, das ossadas baratas e das frutas do quintal revela a distância entre a cidadania formalmente anunciada e a cidadania materialmente experimentada por corpos subalternizados. Argumenta-se, ainda, que a Matemática, quando convertida em gramática tecnocrática de indicadores, metas, médias e cortes, pode obscurecer violências estruturais; em contraposição, a Educação Matemática Crítica permite problematizar os usos sociais dos números e formar sujeitos capazes de ler, questionar e reconstruir as racionalidades que organizam a desigualdade. Conclui-se que escrever desde a panela é afirmar a margem como lugar legítimo de produção teórica, de elaboração ética da docência e de disputa política pela vida

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Willian Jhonis Antunes Melo, Universidade Federal de Rondônia

    Mestrando em Educação Matemática (PPGEM), Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Brasil. Ji-Paraná, RO, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5011-233X. Contato: willianjhonis2015@gmail.com

Referências

ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. In: ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. Trad. Jorge de Almeida. São Paulo: Editora 34, 2003, p. 15-45.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1984.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 91. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2025.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.

HIPÓCRATES. Aforismos. Trad. de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2010.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.

QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005, p. 117–142.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

SKOVSMOSE, Ole. Educação matemática crítica: a questão da democracia. Campinas: Papirus, 2001.

Downloads

Publicado

30-06-2026

Como Citar

MELO, Willian Jhonis Antunes. A panela e o voo interrompido: fome, colonialidade e produção da subcidadania nas margens do Estado brasileiro. Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v. 11, n. 1, p. 1–22, 2026. DOI: 10.35699/2525-8036.2026.63896. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revice/article/view/e63896. Acesso em: 23 jul. 2026.