Irmandades leigas e boa morte nos testamentos de mulheres forras em Sabará na segunda metade do século XVIII

Autores

Palavras-chave:

práticas fúnebres, devoções, mulheres forras

Resumo

O artigo analisa as práticas de preparação para a boa morte a partir da escrita testamentária de mulheres forras moradoras da Vila Real de Sabará, na segunda metade do século XVIII. A pesquisa fundamenta-se na análise qualitativa dos testamentos de Genobeba Lourença, Luiza de Souza e Maria Gomes, buscando compreender de que maneira essas mulheres mobilizaram devoções, esmolas, alforrias, disposições e vínculos com irmandades leigas como estratégias espirituais e sociais voltadas à salvação da alma. A investigação dialoga com as dinâmicas de mestiçagem biológica e cultural próprias do contexto, considerando os testamentos como espaços de negociação. Inseridos no contexto da Ars Moriendi e da doutrina do Purgatório, os testamentos são interpretados como instrumentos religiosos e simbólicos por meio dos quais as testadoras afirmaram sua fé, construíram redes de sociabilidade e exerceram formas de agência feminina, destacando o papel das irmandades leigas na mediação dos rituais fúnebres, dos sufrágios e da assistência espiritual, contribuindo para a compreensão da atuação de mulheres forras no universo urbano e religioso das Minas setecentistas.

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Biografia do Autor

  • Aline Pereira Lopes, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

    Mestranda em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pela linha de História Social da Cultura. É licenciada e bacharel em História pela mesma instituição, com experiência em ensino de História para a educação básica. Na UFMG, fez iniciação científica voluntária em estudo da escravidão e da mestiçagem, voltada para o desenvolvimento do Dicionário das Mestiçagens na Ibero-América, foi bolsista no Projeto de Educação do Ensino Fundamental de Jovens e Adultos (PROEF-2) e do Projeto de Formação Continuada em Produção de Cadernos Pedagógicos para a Educação de Jovens e Adultos da FAE/Prefeitura de Contagem até 2022. Faz parte do Grupo de Pesquisa "Escravidão, mestiçagem, trânsito de culturas e globalização - séculos XV a XIX" (UFMG). No momento, pesquisa Brasil Colonial, História da Escravidão e História das Religiosidades, com ênfase em ritos fúnebres e devoção de mulheres escravas, forras e não brancas nascidas livres em Sabará no século XVIII.

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Publicado

13-02-2026

Como Citar

PEREIRA LOPES, Aline. Irmandades leigas e boa morte nos testamentos de mulheres forras em Sabará na segunda metade do século XVIII. Temporalidades, Belo Horizonte, v. 17, n. 1, p. 1–25, 2026. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/temporalidades/article/view/62779. Acesso em: 17 fev. 2026.