Inteligência artificial, epistemologia e raça

questões semióticas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.1590/1983-3652.2026.64149

Palavras-chave:

Semiótica discursiva, Inteligência artificial generativa, Viés racial, Big data, Epistemologias do Sul

Resumo

Parte-se do discurso de ruptura frequentemente associado à inteligência artificial, argumentando-se que modelos de geração de imagens tendem a reutilizar formas e sentidos anteriores à própria existência dessas tecnologias. Analisam-se os mecanismos pelos quais o viés racial se manifesta nas imagens produzidas pelo DALL·E. Para isso, foram realizados testes que articulam a figurativização de corpos humanos em profissões socialmente investidas de maior ou menor prestígio — como médico(a), professor(a) universitário(a), engenheiro(a) civil, faxineiro(a) de hospital, pedreiro(a) e catador(a) de lixo —, observando-se as regularidades emergentes na distribuição figurativa. Os resultados indicam que, por meio de operações estatísticas sobre big data, o sistema organiza e hierarquiza combinações recorrentes de figuras e traços visuais, associando profissões socialmente desvalorizadas com corpos negros e determinadas marcas plásticas, como cabelos crespos escondidos. Tais marcas tendem a estar ausentes nas representações associadas a profissões de maior prestígio. Observa-se também uma distinção aspectual relevante: enquanto os corpos negros vinculados às profissões desvalorizadas são figurativizados sob a modalidade do fazer, em plena atividade laboral, os corpos associados às ocupações prestigiadas são modalizados predominantemente pelo ser, em posições corporais estáticas. Essa configuração dialoga com padrões historicamente sedimentados na iconografia ocidental, contribuindo para a estabilização de uma norma semiótica racista. O artigo defende, portanto, a necessidade de uma semiótica da inteligência artificial, capaz de analisar criticamente as significações geradas nesses sistemas e de contribuir para o desenvolvimento de tecnologias mais plurais a partir das epistemologias do Sul.

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Biografia do Autor

  • Letícia Moraes , Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Linguística e Língua Portuguesa, João Pessoa, Paraíba, Brasil

    Docente no Departamento de Linguística e Língua Portuguesa (DLPL) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa. Coordenadora do SemiÓLab (Laboratório de semiótica discursiva da UFPB). Membra da Comissão Científica de Semiótica da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN). Doutora em Semiótica e Linguística Geral, na Universidade de São Paulo (USP), com estágio de doutorado na Université de Liège (ULg). Interessa-se principalmente pelos seguintes temas: semiótica, textualidade, inteligência artificial e Sul Global.

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Publicado

21-10-2026

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Como Citar

MORAES , Letícia. Inteligência artificial, epistemologia e raça: questões semióticas. Texto Livre, Belo Horizonte-MG, v. 19, p. e64149, 2026. DOI: 10.1590/1983-3652.2026.64149. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/textolivre/article/view/64149. Acesso em: 27 out. 2026.