Esta publicação se apresenta como Dossiê dos trabalhos apresentados no III Encontro de Pós-Graduação em Filosofia da UFNG, realizado no ano de 2018, evento que se orientou pela transversalidade dos temas da pesquisa em Filosofia. Juntamente ao material dos autores que participaram do evento, publicamos uma entrevista inédita com o Prof. Dr. Rodrigo Duarte, do Departamento de Filosofia da UFMG, versada no tema "ESTÉTICA, ARTE E POLÍTICA NO BRASIL".
Convidamos a todos à leitura!
O artigo procura estabelecer um debate entre John McDowell e Adrian Cussins em torno da natureza do conteúdo da experiência e seu papel racional em nossos juízos perceptuais. O primeiro passo é o de clarificar a tese conceitualista de McDowell presente em Mente e Mundo, tendo como pano de fundo suas discussões com Christopher Peacocke. O segundo é o de apresentar a visão de Cussins a respeito do conteúdo não conceitual da experiência da experiência perceptual. Concluímos apresentando certas possibilidades de via-média entre as duas posições.
Este trabalho discute o problema da articulação entre estrutura e história na arquelogia de Foucault, especialmente na obra As palavras e as coisas. Sustentamos que o autor supera esta suposta dicotomia e renova o pensamento filosófico sobre a história, partindo de importantes lições do estruturalismo, da Escola dos Annales e da epistemologia francesa. Com o estruturalismo, ele aprende a priorizar a sincronia sobre a diacronia, retirando o privilégio da causalidade como índice de racionalização do real e inserindo um sistema de relações, simultâneas e não sucessivas, para pensá-lo em suas diferentes dimensões. Da Escola dos Annales, se apropria da ideia de história serial, construída a partir da análise da materialidade dos arquivos de uma época, em substituição à história como narrativa de eventos. Da epistemologia francesa, incorpora o método da história conceitual, as noções de racionalidade regional e descontinuidade, bem como a premissa de que os conceitos devem ser analisados à luz das práticas sociais e políticas de seu tempo. Não obstante a importância destas influências, o pensamento de Foucault realiza algo novo, operando, segundo Paul Veyne, uma espécie de “revolução científica” na filosofia da história, abrindo novas possibilidades para o diagnóstico de nosso presente.
O presente artigo tem como objetivo elucidar a leitura de Žižek sobre o conceito de encarnação de Hegel e evidenciar como que tal leitura abre a possibilidade para o filósofo esloveno pensar o cristianismo como religião ateia uma vez que Žižek lê o tema da encarnação como o momento em que Deus se torna de fato homem, ou seja, Deus é esvaziado de sua divindade no cristianismo. Na encarnação Deus se torna homem de fato, ou seja, na leitura de Žižek o cristianismo proporia a morte literal de Deus que esvaziaria o mundo de todo princípio transcendente, abrindo para o homem a possibilidade da liberdade plena da ação em um mundo plenamente aberto. Para nós tal leitura de Žižek do conceito de encarnação de Hegel abre perspectivas interessantes para repensar o conceito hegeliano de encarnação e suas implicações, além de ser uma chave de leitura interessante para pensar alguns aspectos do o cristianismo na contemporaneidade.
Trata-se de examinar a imbricação entre linguagem, messianismo e utopia no pensamento de Walter Benjamin a partir da ideia de “prosa liberta” (befreite Prosa). Tal ideia, enunciada em uma das notas preparatórias que acabaram por não integrar as teses Sobre o conceito de história, compreende elementos das reflexões benjaminianas sobre a linguagem, sobre a dimensão messiânica da história, bem como sobre a concepção de utopia, baseada em uma versão libertária, antiautoritária, do comunismo. De modo a explorar tais elementos, serão analisados escritos de Benjamin que versam sobre as temáticas articuladas por tal ideia, como Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem, as próprias teses Sobre o conceito de história, O contador de estórias. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, além de referências a outros, de maneira menos central para a construção do argumento.
Esse artigo tem como objetivo compreender a visão de Arendt sobre a dimensão histórica da linguagem. Embora os estudiosos concentrem seus esforços na leitura do problema da história a partir do conceito de narrativa, pretendo demonstrar que quando Arendt analisa o pensamento de Walter Benjamin, ela desenvolve um método que recebe apenas um tratamento implícito em outras obras. Para tanto, ela conecta o conceito de natalidade com o conceito de citabilidade.
O cenário educacional brasileiro merece continuamente releituras filosóficas, sociológicas, críticas e objetivas. Os últimos tempos, para a educação pública, têm sido marcados por ações e movimentos de alguns atores interesseiros e interessados na condução da educação voltada exclusivamente para o trabalho. Neste artigo pretende-se indicar como as atuais políticas públicas educacionais (PPE) têm reverberado na atuação do professor das escolas públicas frente à sua autonomia e liberdade de condução dos conteúdos curriculares. Ainda, relacionar tais PPE às falácias de reformas educacionais incorporadas ao discurso neoliberal e à massificação do trabalho docente. Para tal, foram elencadas as principais PPE e discussões sobre a educação pública no Brasil como: Escola Sem Partido, Novo Ensino Médio, Base Nacional Comum Curricular da Educação Básica (BNCC) e Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). A partir de tal análise traçamos caminhos entre PPE e atuação docente, a partir dos conceitos de autonomia e heteronomia, o que acabou por evidenciar a precarização e proletarização do trabalho docente.
Neste artigo, discutiremos a relação entre determinação e existência na filosofia de Markus Gabriel, ao remontarmos a abordagem que Gabriel fez dessa questão de volta a Kant. Para tanto, visaremos mostrar como uma pressuposição fundamental tanto de Kant quanto de Gabriel seria a pressuposição daquilo que chamaremos de ontologia da determinação, ou seja, uma ontologia segundo a qual tudo que existe é determinado. Uma vez que tenhamos exposto como essa ontologia da determinação se apresenta em Kant e em Gabriel, mostraremos como a filosofia de ambos autores desemboca em dificuldades semelhantes, e arguiremos que a concepção de uma realidade indeterminada – a qual não é necessariamente sinônima de uma totalidade - pode ser necessária à filosofia de Gabriel.
Intentamos nesse artigo mostrar como os argumentos defendidos pela filósofa Elizabeth Anderson em What is the point of Equality? elucidam que o dilema “Igualdade X Liberdade” é falso, por conseguinte, se tratando de um pseudodilema. Os argumentos sustentam o Igualitarismo enquanto uma doutrina imune a essa objeção, imunidade que não se verifica nas duas mais influentes teses do Igualitarismo, o de Recursos e o de Bem Estar. Portanto, nossa abordagem se dará em três partes; primeiro, apresentaremos sucintamente em que consiste a tese geral do Igualitarismo, em dois grupos, a saber; os igualitaristas de Recursos e os de Bem-Estar. Segundo, exporemos as razões que levaram Anderson a denominar essas vertentes do pensamento igualitarista como igualitarismo da sorte. Por fim, cumpriremos nosso objetivo que consiste em tratar dos argumentos que refutam a tese do igualitarismo da sorte mostrando-o injusto, bem como revelando quais argumentos levariam à adesão da tese do igualitarismo democrático como opção alternativa, superando o pseudodilema.
Neste texto, gostaria de reunir alguns elementos para situar a contribuição de Friedrich Immanuel Niethammer (1766-1848) à formação de uma recepção crítica de Fichte no final de 1794, bem como apresentar brevemente os objetivos e a importância de seu trabalho na edição do principal órgão de divulgação da filosofia do pós-kantismo: o Philosophisches Journal (1795-1798). No que diz respeito à pertinência desta comunicação ao fórum a que se dirige (III Encontro de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG), creio que se apresenta como um pequeno capítulo da história das divergências no interior do programa que levaria à formulação clássica do Idealismo Alemão, entendido em sua primeira fase como fundamentação da subjetividade a partir do problema da identidade, o que se encaixa no eixo temático proposto pelo evento sobre os conceitos de identidade e diferença.
Resumo: Esse trabalho tem por objetivo contextualizar o pensamento político da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943) no que diz respeito à sua principal obra “Manifesto pela supressão dos partidos políticos” (“Note sur la suppression générale des partis politiques”) escrita no ano de 1940 em comparação com o atual momento do cenário político brasileiro. A análise feita pela filósofa contempla os elementos da filosofia de Jean Jacques Rousseau e está fundamentada nos princípios republicanos e no conceito da Vontade Geral. Desse modo, a defesa pela total supressão dos partidos políticos explicitam a falência múltipla da democracia representativa, ao qual condiciona o cidadão a estar filiado a uma sigla partidária e com isso, contrair todas as vicissitudes presentes na tentativa de se manter no Poder. Assim, para Simone Weil, é necessário uma sociedade plural e livre de toda a ideologia partidarista resgatando a democracia participativa como sendo a única forma de deter a velha política do atendimento aos interesses particulares usando o Bem comum, seu meio justificado para um determinado fim.