Um Marcel Proust cientista: recepções de À la recherche du temps perdu entre a crítica literária e as neurociências
Palavras-chave:
Marcel Proust; recepção; ciência.Resumo
Este artigo faz um exame histórico de leituras que imputaram a Marcel Proust a etiqueta de cientista, explorando os modos pelos quais um escritor canonizado se torna referência em um campo que, frequentemente, se constrói em contraste — e por vezes em oposição — à literatura. Primeiro, investiga-se a recepção da obra na crítica literária das décadas de 1920 e 1930, que a leu como análise científica, objetiva e psicológica. Em seguida, expõe-se a apropriação da obra por neurocientistas na segunda metade do século XX, que acabaram por transformar Proust em um precursor do próprio campo. Por fim, explora-se a reação dos estudos literários mais recentes ao Proust das neurociências, destacando as tensões e acomodações entre as abordagens. Busca-se, com isso, investigar as camadas de sentido atribuídas ao autor e sua obra ao longo de sucessivas intepretações, em momentos e disciplinas distintas, que acabam por cristalizar versões concorrentes – e frequentemente incomunicáveis – do “proustiano”.
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